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A história do arquiteto Francisco Aragão, uma história de superação

Arquitetura, desenho, tragédia, acidente, corpo preso em tetraplegia, coragem de viver, superação. É o que se pensa, qualquer que seja a sequência, quando se chega a uma casa branca na QI 5 do Lago Norte, em Brasília, onde mora o arquiteto Francisco de Assis Lima Aragão, 66 anos, 39 deles vividos apenas com os movimentos da cabeça, com a voz, o ouvido, a consciência e o coração.

 

Francisco de Assis Lima Aragão

 

Não é da prancheta, nem do acidente, nem da força para se manter não apenas vivo, mas existindo, que brotam as melhores e mais surpreendentes histórias da vida desse arquiteto que, mesmo tetraplégico, projetou mais de 100 casas em Brasília, no Lago Sul, Lago Norte e nos condomínios de classe média e média-alta. É do coração.

 

Um capotamento a caminho de Fortaleza (CE), aos 27 anos, dividiu a vida de Assis em antes e depois. O acidente lhe tirou os movimentos do pescoço para baixo e quase tirou também o desejo de continuar vivendo. Foi preciso que alguém (por amor) o fizesse perceber que há vida mesmo quando o corpo passa a ser um fardo.

 

O arquiteto estava indo de carro a Fortaleza para se casar com a namorada, Ana Laura, grávida de três meses. No acidente, eles perderam o bebê, mas não o amor. Nos cinco anos seguintes, ela cuidou do amado e o fez perceber que podia voltar a desenhar, com a ajuda de um equipamento (um fio de metal de onde desce um fio maleável que conduz sobre o papel o lápis preso à mão de Assis).

 

Essas mãos já projetaram mais de cem casas

 

O cearense de Sobral, filho de uma costureira (Conceição) e um caixeiro-viajante (José), desde criança gostava de desenhar, daí ter escolhido a arquitetura. Quando desceu do avião da FAB, na Base Aérea de Brasília, em junho de 1974, para o vestibular, sentiu um frio que até então desconhecia. Ao mesmo tempo, foi tomado pela amplitude de Brasília. A cidade das fotografias era de verdade, porém muito mais monumental do que as imagens no papel.

 

Aprovado no vestibular, teve dificuldade para se adaptar à frieza cartesiana e moderna da nova capital. “No primeiro semestre de aula, quis voltar para Fortaleza, mas acabei me acostumando”. Foi aluno de Athos Bulcão, estagiário de João Filgueiras Lima, o Lelé, e quase foi com ele ajudar no projeto do Sarah de Salvador (BA). A tragédia interceptou os planos de trabalhar com um dos mais importantes (e tecnológicos) arquitetos brasileiros.

 

“Eu amo Oscar Niemeyer”

 

Passados cinco anos do acidente, a namorada, Ana Laura, engravidou novamente – ter um filho era um de seus mais renitentes desejos. Complicações na gravidez a fizeram perder a criança e a tirar o útero. Outra perda viria: Ana foi embora e deixou Assis sem seu outro corpo. Tamanha dor o fez mandar erguer um barraco de madeirite num terreno da família, a 70 km do Plano Piloto, e, com a ajuda de um cuidador, ficou sozinho com sua dor. “Chorei um ano inteiro”. A mãe e o pai construíram um barraco ao lado – o amor, sempre ele.

 

Quando não havia mais lágrimas (um dia elas acabam, mesmo que demore muito), o arquiteto abandonado decidiu retomar a vida no ponto em que a havia deixado. Procurou ajuda terapêutica, voltou aos projetos de Arquitetura e obedeceu à terapeuta: “Você vai entrar num site de relacionamento, se não entrar, eu entro por você”. Entrou, encontrou uma namorada e namorou até que o amor acabar. A essa altura, Assis já estava inteiramente devotado à arquitetura, aos desenhos, às esculturas.

 

Projetos, desenhos e escultura são a devoção do arquiteto

 

O arquiteto formado na cidade mais moderna do mundo é apaixonado por um homem: “Eu amava Oscar Niemeyer, amo Oscar Niemeyer”. Mas é quando se declara a Brasília que Assis vira o pescoço para trás, e parece em êxtase: “É muito linda, amo demais essa cidade!”. Foi-se o estudante que um dia pensou em voltar ao Ceará, por conta da frieza dos brasilienses. Não demorou a perceber que o afeto candango se expressa de um modo muito singular: “Aqui, a gente pode passar muito tempo sem ver um amigo, mas quando encontra parece que nunca se afastou, é um amor”.

 

O pulsante coração de Assis anda batendo no compasso dos tambores: há três anos está noivo de Silvana Raquel, uma candanga de 55 anos que mora no Núcleo Bandeirante e está sempre perto do amado. Cuida dele, fica atenta às consultas médicas, aos medicamentos, à alimentação.

 

Foi o destino, esse mágico invisível, que os uniu. Assis precisava de um cuidador e recebeu a ligação de uma voz feminina que falava em nome de um amigo interessada no emprego. “Gostei da voz dela e quis conhecê-la”. Logo se apaixonaram. “Ela me faz feliz”.

 

É o que se pode chamar de arquitetura do amor.

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* Conceição Freitas, manauense, vive desde 1992 em  Brasília. Cronista, autora de “Só em Caso de Amor — 100 Crônicas para Conhecer Brasília” e “Amantíssima”,  Vencedora do 51º Prêmio Esso de Jornalismo – Grande Prêmio Esso, com a série “Amores Possíveis”. Escreve atualmente para o “Metrópole”.

2 respostas

  1. UMA VIDA INTENSA.SAIR DO NORDESTE E CHEGAR NO AGRESTE.
    No primeiro já exige um temperamento muito forte para resistir as diversas agruras de um clima inóspito.
    No segundo, a terra selvagem,vermelha,o horizonte sempre ao longe,cercada de buritis.
    Assim deixou,o primeiro, em busca do futuro.
    Apesar de ter sido surpreendido pelo passado doloroso, está no presente.
    Magnífico gesto, expontâneo frente as adversidades, forte e inteligente.
    Adotou a arquitetura como companheira ideológica, fez muito bem.É para toda a vida.bravo.
    Obteve atualmente a dádiva de ter ao seu lado outra companhia.
    Declarou seu amor irrestrito a dois amigos e colegas,de João Filgueiras Lima(LELÉ),recebi de suas mãos, livro com autógrafo carinhoso, em evento realizado em Pôrto Alegre na década de 1980, na Assembléia Legislativa, e do outro Oscar Niemeyer, com quem privei contato pessoal, por três oportunidades no Rio de Janeiro em 1983, sendo um deles em seu Atelier na Av.Atlântica. Eu também amo Oscar Niemeyer e o LELÉ !Deste modo sincero expresso meu respeito,admiração e alegria por conhecer a estória de vida deste grande mestre Arq.Urb.Francisco de Assis Lima Aragão. Com certeza os dois mestres estão ao seu lado sempre, prossiga com sua arquitetura da vida.Grande Abraço. Arq.Urb.William Cunha Pupe/CAU/RS A10912-6

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