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Artigo – ‘Dia Mundial do Meio Ambiente’ exige debate mais amplo diante da tragédia do Rio Grande do Sul

Leila Marques é arquiteta e urbanista, conselheira federal do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) e do Climate Reality Leadership Corps

 

No Dia Mundial do Meio Ambiente, principalmente diante da recente catástrofe gaúcha, que não é primeira nem única no Brasil, precisamos falar de emergências climáticas, sustentabilidade ambiental, para podermos seguir falando de VIDA.

 

As já famosas “chuvas inesperadas de verão”, que caem com intensidade “muito acima do previsto”, já não podem mais ser surpresas para ninguém. A natureza vem respondendo, cada vez com mais firmeza, a todas as provocações antrópicas que vem sofrendo nas últimas décadas, e, para todos os  profissionais que atuam em urbanismo,  considerar medidas ESG (conceito que reúne as boas práticas das políticas de meio-ambiente, responsabilidade social e governança), não são mais apenas uma opção.

 

Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, cariocas costumam dizer que temos dois tipos de clima: o verão e o inferno (com F mesmo). Mesmo com toda essa hipérbole, bastou o termômetro baixar dos 25ºC que os mesmos cariocas desfilam casacos, cachecóis, gorros e botas bem invernais. Para fechar, como diz a canção, não gostamos de dias nublados; menos ainda de chuva.

 

Essa insatisfação do carioca com o excesso de calor e excesso de chuvas não são à toa. O Rio de Janeiro tem uma geografia que implica em insolação de dia e irradiação de calor à noite. Em bairros áridos como os da zona oeste, o calor é absolutamente insalubre e, para combater esse perrengue, tome ar condicionados ligados diuturnamente lançando seus gases de efeito estufa, logo, mais calor na atmosfera, mais calor no meio-ambiente e mais chuvas ácidas.

 

Em outros bairros, as chuvas, mesmo as não tão fortes, são sinônimos de enchentes, transtorno no trânsito, acidentes, sem falar em deslizamentos – e aí já estaremos falando de áreas de maior vulnerabilidade, que são as áreas periféricas com pouca ou nenhuma infraestrutura, cujos moradores, inquestionavelmente, sofrem muito mais os efeitos das mudanças climáticas –  essa seria até uma definição simples para “racismo ambiental”.

 

Fato é que os problemas climáticos\ambientais são muito complexos e não serão mitigados com a rapidez que seria necessária. Todos os esforços que estejam sendo feitos nesse momento, já não impedirão catástrofes que estão em curso, porque o que já foi deteriorado, não será recuperado em poucos anos. E o que sobreviveu ainda depende de manutenção e cuidados. Ainda assim, todas as medidas protetivas que vimos ouvindo falar nos últimos meses são válidas, desde que sejam SBN (soluções baseadas na natureza), pois a degradação que implica nessas catástrofes urbanas, têm sua origem justamente no tempo que o homem levou para descobrir que os recursos da mãe-natureza são finitos, e responsivos aos maus tratos.

 

Falar de meio-ambiente, no “seu dia”, numa realidade onde 85% da população vive em áreas urbanizadas em detrimento das zonas rurais, é alertar para o enorme desafio e responsabilidade que meus colegas urbanistas, planejadores urbanos, governantes e sociedade em geral têm diante da dicotomia de crescer\ desenvolver e paralisar\estagnar as nossas cidades.

 

Parabéns pelo seu dia, Meio-ambiente!  Que você sobreviva e dure por mais alguns milhões de anos, são meus desejos sinceros.

 

*Artigo publicado no jornal Diário do Rio, no dia 04.06.2024.

**Artigos divulgados neste espaço são de responsabilidade do autor e não correspondem necessariamente à opinião do CAU/BR.

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