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Artigo: Os Edifícios de Brasília refletem o nosso projeto de país

O artigo abaixo foi escrito pela presidente do CAU Brasil, Nadia Somekh, em resposta a um texto publicado no jornal Estadão nesta quinta-feira, dia 19 de janeiro. Uma versão resumida do artigo foi enviada e publicada no jornal no dia 20 (leia aqui).

 

 

Dizem que toda crise traz oportunidades. No caso dos ataques à democracia e às sedes dos três poderes, nossa oportunidade é sensibilizar a sociedade sobre a importância da Arquitetura e do Urbanismo para um projeto de país. Mais do que a depredação material, os ataques de 8 de janeiro tinham como objetivos destruir símbolos da nossa democracia, da nossa cultura e da nossa excelência técnica, representados pelos prédios de Oscar Niemeyer.

 

Infelizmente, esses símbolos foram mais uma vez atacados em um artigo de opinião publicado no Estadão, pelo economista Roberto Macedo (Os vulneráveis edifícios envidraçados de Brasília, 19/01/2023). Confessando seu desconhecimento total sobre o tema, e embasado em uma única citação pinçada de um livro sobre educação, ele promove uma confusão de conceitos sobre a função da Arquitetura e propõe soluções medievais para as reformas que estão sendo feitas na Praça dos Três Poderes.

 

Ignora, por exemplo, que Brasília é Patrimônio Mundial da Humanidade, tombado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) – justamente com o intuito de preservar suas características originais para apreciação das gerações futuras. É um reconhecimento oficial do valor daquela obra para a compreensão da história e da identidade de uma nação e, como no caso de Brasília, de toda a humanidade.

 

O autor do artigo sugere, entre outras barbaridades, substituir as fachadas de vidro “por paredes de alvenaria e as portas por outras de ferro ou madeira grossa para dificultar o ingresso de indesejáveis”. Surpreende que não tenha aconselhado também a escavação de um fosso com jacarés em volta do Palácio do Planalto. Na sua concepção, os monumentos da nossa República servem apenas para hospedar “poderosos privilegiados”: políticos, juízes e “seus” funcionários.

 

Na verdade, essas edificações de concreto e aço – nascidas da mente de um gênio – simbolizam e celebram a democracia, a criatividade brasileira e a autodeterminação dos povos. São casas (e funcionários) de todos os cidadãos, não de poderosos de ocasião. Presidentes, parlamentares, juízes vêm e vão. O que fica é a soberania popular, também representada pelas leis e pelo voto.

 

Praça dos Três Poderes, em Brasília

 

Quando Lucio Costa fez o projeto do Plano Piloto, sua preocupação não era afastar a população da Esplanada dos Ministérios. Pelo contrário, o espaço é definido como um “extenso gramado destinado a pedestres, a paradas e a desfiles”. A própria construção de Brasília, ao contrário da crença popular, “trata-se de um ato deliberado de posse, de um gesto de sentido ainda desbravador”.

 

Nós, arquitetos e urbanistas, estamos buscando cada vez mais espaços para mostrar à população como a nossa profissão pode contribuir com a qualidade de vida das nossas cidades, muitas vezes separadas pelos muros invisíveis da desigualdade social. A devastadora banalidade do texto do senhor Roberto Macedo, infelizmente, remete à desconsideração com a Arquitetura e o Urbanismo no Brasil, onde 82% das obras são feitas sem o auxílio técnico de arquitetos e engenheiros.

 

Não podemos jamais desconsiderar a dimensão civilizatória da Arquitetura e do Urbanismo. Da mesma forma que Brasília e suas obras de arte simbolizam a nossa democracia, cada edificação de cada cidade brasileira representa pedaços de nossa cultura, nossos valores, nossas ambições enquanto sociedade. De nossa parte, nós arquitetos e urbanistas queremos participar de um projeto de país que valorize a inclusão, a cultura, a sustentabilidade, o conforto e – principalmente – a dignidade.

 

Na década de 1960, quando Brasília foi construída, nosso projeto para o Brasil focava na modernidade e no desenvolvimento. Era a “Capital da Esperança”. São esses valores que foram vilipendiados em sua forma arquitetônica e continuam sob ataque. O que poderá garantir a segurança dos prédios, Patrimônio Mundial da Humanidade, é o fortalecimento da democracia e a construção de um projeto nacional. Neste século XXI, precisamos construir um novo projeto de país. Com uma Arquitetura e Urbanismo que nos represente e nos inspire a voos cada vez mais altos.

 

Qual projeto vamos construir após a depredação?

 

Nadia Somekh, presidente do Conselho de Arquitetura do Brasil e professora emérita da Universidade Mackenzie.

Subscrevem esta manifestação as entidades nacionais de arquitetos e urbanistas (IAB, FNA, AsBEA, ABEA, ABAP e FeNEA)

 

⚠️ Arquitetos (as) e urbanistas interessados(as) também podem se manifestar sobre o assunto por meio de cartas para o Estadão pelo e-mail: [email protected]. O tamanho ideal aceito pelo jornal são mil caracteres com espaços, sem garantia de publicação.

 

9 respostas

  1. OS VULNERÁVEIS PENSAMENTOS ANACRÔNICOS

    Hugo Segawa
    Arquiteto, Professor Titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade e São Paulo.

    Li, estarrecido, as sugestões do economista Roberto Macedo sobre a “vulnerabilidade dos edifícios envidraçados de Brasília”

    Interessante examinar as referências de “segurança” do articulista em dois exemplos: o Palácio de Buckingham e a Casa Branca. O primeiro, construído no início do século 18, é a residência oficial da realeza britânica. A crônica do Palácio registra que em 1982 a Rainha Elizabeth II, em seu quarto, despertou tendo a sua frente um pintor desempregado, que entrou pulando o muro.

    A Casa Branca foi construída no final do século 19 para sede do governo, e é precisamente contemporânea ao Capitólio de Washington. Será que “as paredes grossas e grandes e fortes portões” deste edifício, sugeridos pelo economista como solução de invulnerabilidade, impediram o triste episódio de 6 de janeiro de 2021?

    Como é possível derrubar inexpugnáveis fortalezas? A mitologia nos ensina: não foram as poderosas muralhas de Troia que evitaram os gregos vencerem. Não parece ser questão de “paredes de alvenaria e as portas de ferro ou madeira grossa”. Trata-se de um pensamento mais elaborado.

    O economista “viu pelo jornal” e conseguiu, quase como um arquiteto, imaginar as medidas de estruturas com vidro que, “se quebrado, permitem o ingresso de pessoas”. Também eu vi pelo jornal que os vândalos não precisaram quebrar essas estruturas: alguém facilitou, ou deixou entrá-los. Deu para reparar que os estilhaços estão bastante espalhados pelo lado externo do prédio. Isto é, vidros foram vandalizados de dentro para fora.

    Felizmente o articulista é precavido ao opinar sobre os prédios e procura referências: “mas como avaliá-los não sendo eu um arquiteto? Orientei-me pela citação que encontrei de um arquiteto, Buckminster Fuller, americano, tido como de renome mundial”. Cautela desnecessária: Fuller não é “tido”, mas “é” um inventor extraordinário. E a partir das palavras de Fuller, questiona: 1) o desenho está de acordo com o objetivo do prédio? 2) É funcional? Lendo as propostas arquitetônicas de Macedo, elas me soaram mais convenientes para bunkers. Hoje, nem uma agência bancária ostenta a aparência de bunker. E muitas são cercadas de vidro. O aparato e a aparência de bunker não cabem para o que os três edifícios atacados devem simbolizar: a democracia.

    Como arquitetos, podemos divergir sobre soluções arquitetônicas, como economistas divergem sobre temas de sua seara. Mas, definitivamente, arquitetura de bunkers não está de acordo com o objetivo e nem é funcional para compor a paisagem de uma cidade, sobretudo a capital do país. Isto sim, é “claramente errado”, usando as palavras do articulista. Chamamos essa síndrome defensiva de “arquitetura do medo”. Não é o medo que justificou o reconhecimento de Brasília e seus principais edifícios como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

    Eu também creio nos quatro pontos (ao lado de tantos outros que lidamos como arquitetos) que Buckminster teria dito a um jovem arquiteto. Mas eu tenho quase a certeza que Fuller diria outra coisa para um economista sênior.

    São Paulo, 19 de janeiro de 2023

    [carta enviada ao jornal O Estado de S. Paulo]

  2. É por isso que o Sr. Roberto Macedo seguiu a carreira de Economista! Mas também não basta ter Diploma de Arquiteto para ser Humanista, Culto ou Esclarecido, tanto politicamente, quanto socialmente. Aliás, comprovamos isto na últimas eleições, quando mais de 90% confirmaram seus votos em duas comprovadas maldições, verdadeiros lixos da nossa história. Portanto, a artigo do Sr. Macedo, só comprova a mediocridade de nossa falida e lastimável sociedade brasileira.

  3. Excelente artigo o de Nadia e lamentável a violência estúpida contra o Patrimônio Público. Todo o direito para manifestar-se a a favor ou contra o Governo desde que de forma ordeira e civilizada e que precisamente a disposição arquitetônica e urbanística da Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Tres Poderes facilitam.

  4. O grande gramado muitas vezes amarelado pelas estiagens e outras tantas de um verde exuberante alimentado pelas águas pode mostrar pela primeira vez em um setembro cívico o verde e amarelo da população completando o sonho de um gênio da arquitetura que mesmo nascido em terras de Portugal se eternizou como brasileiro ( Lúcio Costa ) A imagem de um povo ordeiro e civilizado numa enorme manifestação cívica como a de sete de setembro deve ser a memória de uma arquitetura brilhante e não as excessões apequenadas e espúrias que pixam a Democracia mas não a ferem mortalmente .

  5. O tal Roberto Macedo se diz formado pela UFMG, USP e Harvard, mas escreve um artigo inteiro ousando criticar Arquitetura consagrada sem conhecer o básico do básico sobre o assunto, baseado em pesquisa preguiçosa no Google Imagens e em um livro que nem é sobre Arquitetura. Pela atitude de divulgação em larga escala de tamanha ignorância e pelo desserviço que isso causa à Arquitetura e à cultura nacional, o CAU deveria processá-lo.

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