PATRIMÔNIO CULTURAL

Bairros Históricos: Desenvolvimento Local Solidário e Fábrica de Restauro

“Desenvolvimento Local Solidário e Fábrica de Restauro” foi o tema da terceira mesa do “Seminário Internacional Gestão Inovadora de Bairros Históricos”, realizada em seu segundo e último dia, 11 de setembro de 2018.

 

O evento foi promovido pela Comissão de Relações Internacionais do CAU/BR, em co-realização com o CAU/SP e o curso de pós-graduação de Arquitetura e Urbanismo da FAU da Universidade Mackenzie, como apoio da CAPES.

 

BARBARA LIPIETZ

 

(É professora da Bartlett Development Planning Unit DPU da Univerdidade College de Londres,  onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Transformações Urbanas.Tem assento no Comitê de Planejamento Urbano, é pesquisadora de consultora em ativismo, governança e planejamento urbano,regeneração e habitação, especialmente nos contextos da África, Ásia e Londres. Trabalhou numa variedade de escalas que incluem o internacional e o local incluindo a experiência do Just Space , ONG de desenvolvimento local apoiado pela pesquisadora)

 

Barbára Lipietz

 

Barbara Lipietez falou sobre Patrimônio no contexto de operações de regeneração inclusiva em bairros em Londres. Com sete milhões de habitantes, a capital inglesa é um grande centro financeiro mundial e, ao mesmo tempo, tem uma das mais diversas configurações étnicas do mundo. “A cidade é muito dinâmica, com ótima economia mas também é muito grande, com grandes desigualdades. Tem umas questões bem problemáticas, como 27% da população vivendo em condições de pobreza, um percentual que tende a crescer pela distribuição desigual da riqueza e o desemprego”.

 

A desigualdade se reflete no território. Os aluguéis estão altos no oeste e muitas pessoas estão indo para os subúrbios. Para tentar reverter o problema, a atual governança metropolitana busca atrair grandes investimentos em regiões bem específicas, principalmente na parte leste, onde o preço imobiliário é mais baixo.  No entanto, essas áreas de oportunidade são justamente aquelas onde estão os mais pobres, ameaçados de deslocamento.

 

“Mesmo com a existência de consultas públicas e outras ferramentas de participação, essas oportunidades democráticas estão perdendo espaço para outros interesses de desenvolvimento de imobiliário. Nesse contexto tivemos uma grande mobilização com quinhentas mil pessoas protestando, algo incomum no país, diferentemente da França. Também temos o crescimento de mobilizações que correspondem a processos bem locais, como a área de Just Space, local de produção de alimentos. “O que está acontecendo ali não só a perda dos edifícios, mas das relações sociais que são facilitadas por esses edifícios e é por isso que as pessoas estão se organizando para tentar salvá-los”.

 

“No caso de mercados, não é só a criação de renda para esses comerciantes que tem dificuldade para entrar no mercado de trabalho, mas é também um espaço onde as crianças podem brincar livremente, é um lugar acolhedor, quando os novos imigrantes chegam eles acabam aprendendo como navegar no sistema londrino. E esses ambientes comunitários também são vistos como muito importantes porque eles são marcos das celebrações que essas pessoas tem:batizados, festas de aniversário, casamentos e, eventualmente funerais. Eles se tornam importantes e também trazem, por exemplo, aconselhamentos jurídico e de negócios.  Então são espaços de refúgio, são espaços seguros especialmente para grupos minoritários dessas comunidades e com uma conexão muito emocional no sentido de que se você destruir o edifício, mesmo que se seja criado algo no mesmo lugar não será o mesmo. É essa a noção de perda total, de que esses lugares são insubstituíveis”.

 

Segundo ela, as universidades têm um importante papel a cumprir na produção de respostas para esses desafios, “colocando as necessidades da comunidade dentro da sala de aula, porque elas fazem parte do projeto e o que nós ensinamos acaba se tornando mais relevante, então é uma situação onde os dois grupos acabam ganhando. Nem sempre é fácil, claro, porque nós temos ritmos diferentes, é complicado fazer um trabalho de coprodução, mas no final vale muito a pena”. Sua universidade também fornece suporte técnico para os grupos de comunidade e outras  criaram grupos de trabalho para trabalhar comerciantes e imigrantes e pessoas preocupadas com perda de espaço.

 

Clique no link para acessar a apresentação de Barbara Lipietez

 

 

CARLOS LEITE

(Após cursar Engenharia Agrícola-Ambiental,  obteve graduação em Arquitetura e Urbanismo e tem Mestrado e Doutorado em Estruturas Ambientais Urbanas.  É Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi pesquisador no projeto Urban Age Global Cities (London School of Economics/Mackenzie). Foi membro do Conselho da Cidade, Prefeitura do Rio de Janeiro. Foi Diretor da São Paulo Urbanismo. É autor do livro Cidades Sustentáveis, Cidades Inteligentes (Bookman, 2012; finalista Prêmio Jabuti).  Possui expertise em Desenvolvimento Urbano Sustentável, Projetos Urbanos e Estruturação e modelagem urbana, incluindo instrumentos urbanos, planos estratégicos, Planos Diretores, estruturação de PPPs urbanas e Projeto de Intervenção Urbana)

 

Carlos Leite

 

Carlos Leite apresentou uma proposta de “urbanismo social” para o bairro do Bixiga, em São Paulo, objetivando conciliar suas transformações com a preservação do patrimônio urbano com inclusão social.

 

“Ao falarmos sobre urbanismo social, remetemos ao exemplo pioneiro de Medellin, entretanto, a cidade colombiana não detém os direitos sobre o conceito de urbanismo social, e por isso, podemos pegar esses grandes exemplos para trabalharmos em nossas cidades”, disse.

 

Uma das ferramentas que poderiam ser usadas, diz ele, seria o financiamento de projetos que promoveriam a valorização do território, para reinvestimento na própria região, com usufruto público.  

  

Clique no link para acessar a apresentação de Carlos Leite

 

NADIA SOMEKH 

 

(Arquiteta e urbanista, conselheira federal do CAU/BR por São Paulo, professora de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie. Foi presidente do CONPRESP e diretora do Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Paulo 2013 a 2016. Foi presidente da EMURB e secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André, entre outros cargos públicos. Foi Diretora da FAU Mackenzie 2005 a 2009. Professora convidada do IUP  (Institut d Urbanisme de Paris) e da Universidade de Cergy Pontoise. É autora de “A Cidade Vertical e o Urbanismo Modernizador”, entre outros livros e artigos. Pesquisa verticalização das cidades brasileiras e projetos urbanos e Patrimônio Histórico na metrópole contemporânea) 

 

Nadia Somekh

Nadia Somekh, ao falar sobre o Bixiga,  lembrou que em 2017  a Associação Paulista de Críticos de Arte premiou o bairro pela sua resistência urbana.

 

“Apesar de rasgado por grandes avenidas, o bairro se manteve por muito tempo protegido da gentrificação, e muito disso se deve por ter sido ocupado pela população mais pobre. Para que essa proteção se estenda é que são importantes os projetos urbanos inclusivos para bairros históricos”.

 

Sob sua coordenação, o programa de pós-graduação do Mackenzie irá implantar uma “Fábrica de Restauro” no Bixiga, que pretende ser o ponto inicial de um projeto maior de preservação do bairro e referência para outras iniciativas do gênero. 

 

Clique no link para acessar a apresentação de Nádia Somekh 

 

 

DEBATES

 

“Arquitetos e urbanistas são corresponsáveis no processo de diálogos sobre como gerir o patrimônio histórico, e essa é uma discussão que devemos fazer com a sociedade como um todo”, disse durante o debate Claudia Pires, conselheira do IAB-MG.

 

Para o produtor cultural e social Sérgio Milleto, precisamos amadurecer como sociedade e mantermos pressão constante sobre os administradores públicos. “Problemas complexos exigem soluções complexas, por isso, não consigo ver como poderemos ter uma valorização do patrimônio público sem uma reforma fiscal e uma reforma do Estado”, disse Milleto.

 

OFICINAS

 

Na tarde do segundo dia do seminário, aconteceram as oficinas  “Fábrica de Restauro”, coordenada por Lizete Rlubano (FAU Mackenzie e CAU/SP); “Fórum do Patrimônio”, a cargo de Luiz Antônio de Souza (IAB); “Jornada do Patrimônio”, sob coordenação da arquiteta e urbanista Vanessa Correa; “Economia Criativa e Projetos Urbanos”, com Violeta Kubrusly (CAU/SP); “Financiamento e Sustentabilidade”, por Emerson do Nascimento (CAU/BR); e “Aprovação de Projetos de Restauro”, com Cassia Magaldi (CAU/SP). 

 

 

Segundo a idealizadora do seminário, a conselheira federal Nadia Somekh, “os encaminhamentos que tivemos foram muito importantes, e no esforço das oficinas que aconteceram em menos de três horas, conseguimos entender e trabalhar embebidos com o conhecimento que foi transmitido nesses dois dias”.  A soma das reflexões resultaram em 1o propostas de ações anunciadas no final do evento. 

 

Assista o vídeo das palestras do dia 11 de setembro:

 

 

Veja mais: Bairros Históricos: Fortalecimento Territorial, Institucional e Gestão

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