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Carla Juaçaba: “sustentabilidade em Arquitetura é construir com o acessível”

Hoje, uma das arquitetas brasileiras que mais está em evidência no exterior é a carioca Carla Juaçaba. Uma das obras mais recentes que a evidenciou esse renome foi a Capela no Pavilhão da Santa Sé, na 16º Bienal de Arquitetura de Veneza. Encomendada pelo Vaticano, o pedido foi de uma capela de caráter efêmero, que não ultrapassasse uma área de 7x10m. A capela está localizada em um bosque em frente a Piazza San Marco, atrás de uma igreja de Palladio e de um mosteiro beneditino de origem medieval. Por essa e outras obras, como o Pavilhão da Humanidade, projetado para receber a Rio+20 em 2012, a arquiteta foi cotada pelo ArchDaily como um dos potenciais vencedores do Prêmio Pritzker 2019, considerado o “Nobel da Arquitetura”.

 

Nascida em 1976, Juaçaba cursou  Arquitetura e Urbanismo na Universidade Santa Úrsula. Durante a faculdade, os mestres e maiores inspiradores de Carla foram a artista Lygia Pape e o arquiteto Sérgio Bernardes. Com seu projeto de conclusão de curso, “Uma Igreja no Rio”, Carla recebeu o prêmio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) de Construção Civil, em 2000, primeiro prêmio de sua carreira.

 

Arquiteta e urbanista carioca Carla Juaçaba. Foto: Arquivo Pessoal.

 

Durante a faculdade, Juaçaba trabalhou com cenografia com a arquiteta Gisela Magalhães, que era da geração de Oscar Niemeyer e de Darcy Ribeiro. Foi apenas após projetar sua própria casa que Carla se viu como arquiteta. Em 2000, abriu o escritório Carla Juaçaba Studio, no Rio de Janeiro, e começou a desenvolver projetos residenciais e culturais.

 

Os trabalhos de Carla Juaçaba são conhecidos por seu caráter experimental, moderno e orgânico. Em seus projetos residenciais, Carla demonstra preocupação com a inovação ambiental e socialmente sustentável, característica que a concedeu o prêmio arcVision – Women and Architecture, em 2013. A premiação internacional tem como objetivo reconhecer anualmente arquitetas que apresentam excelência, tecnologia e implicação sociocultural em seus projetos.

 

Algumas das habitações que apresentam essa preocupação ambiental é a Casa Rio Bonito (2003), construída em cima de uma montanha na serra de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. A localização da casa foi escolhida por sua proximidade com o rio. Por causa dessa localização, a casa é suspensa do chão, para proteger da umidade e permitir a visão do rio. Claraboias e janelas que vão do chão ao teto permitem a iluminação natural da casa. A Casa Rio Bonito ganhou menção honrosa na 40ª Premiação Anual do IAB/RJ 2002.

 

Casa Rio Bonito, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro. A casa recebeu menção honrosa na 40ª Premiação Anual do IAB/RJ 2002. Foto: Divulgação

 

A Casa Varanda (2007) foi construída com o objetivo principal de preservar todas as áreas centenárias do terreno e alterar a natureza do espaço o menos possível. Segundo Carla, “o lugar é tão bonito que eu tive o desejo de deixá-lo intocado. Ou de projetar uma casa com menos presença”.

 

Casa Varanda, construída para a neta do arquiteto Sérgio Bernardes, no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação.

 

Já a Casa Santa Teresa (2017) foi projetada em um terreno em declive no Rio de Janeiro em parceria com o arquiteto Carlos Zebulun.  A curva de nível da rua orienta as duas partes diferentes da casa, a social e a íntima. Todo o ambiente tem uma visão panorâmica da floresta, a Baía de Guanabara. Para Juaçaba, o maior desafio do projeto foi manter todas as árvores do local, pois o espaço é uma área de preservação ambiental. A casa foi indicada para o Prêmio Mies Crown Hall Americas de 2018, organizado pela Faculdade de Arquitetura do Instituto de Tecnologia de Illinois.

 

Casa de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A obra foi indicada ao Prêmio Mies Crown Hall Americas de 2018. Foto: Divulgação.

 

Para a arquiteta, o prêmio arcVision foi uma conquista para a história feminina na arquitetura, como afirmou em entrevista à Pin Up Magazine.  “Eu prefiro não diferenciar a arquitetura feita por um homem da feita por uma mulher. É uma questão de boa ou de má arquitetura. ”

 

Em entrevista ao portal ENTRE, Carla afirmou que a razão de existirem poucas mulheres na arquitetura é que o ato de construir, por si só, ainda é muito masculino. Apesar disso, ela não vê distinção entre o trabalho feminino e o masculino.  “A questão hoje deve ser como as mulheres se posicionam no mercado, não como elas são posicionadas”, declarou a arquiteta.

 

Em 2012, Carla Juaçaba projetou, em parceria com a cenografista Bia Lessa, o Pavilhão da Humanidade, que abrigou a Conferência das Nações Unidas sobre Sustentabilidade Rio+20. A estrutura baseada em andaimes, montada em Copacabana, no Rio de Janeiro, recebeu mais de 200 mil visitantes nos dez dias do evento. “Na nossa primeira visita de campo ao local, vimos uma base de andaimes para um evento que acontecia no local. Então percebemos que aquele material era sempre utilizado para estruturas provisórias ali – ou seja, além de experimentado e acessível, era sustentável”, lembra a arquiteta.

 

“Boa parte do material da estrutura foi alugado, usado antes em outras construções e já deve ter sido reusado. Um dos princípios de sustentabilidade em Arquitetura é construir com o acessível”, explica a arquiteta e urbanista. O Pavilhão recebeu o troféu Revelação na categoria de arquitetura do Prêmio Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) 2012, destinado ao melhor da produção cultural do ano.

 

Pavilhão da Humanidade, construído par abrigar a Rio+20, em 2012. Foto: Leonardo Finotti/Divulgação

 

O escritório Carla Juaçaba Studio foi a vencedora do AR Emerging Architecture Awards 2018, prêmio da revista inglesa Architectural Review que reconhece os jovens profissionais da arquitetura. O júri do prêmio elogiou a consistência e a continuidade da arquiteta. O escritório também foi mencionado na lista dos melhores escritórios de arquitetura do mundo, idealizada pelo ArchDaily em 2018.

 

Em janeiro de 2019, o portal ArchDaily pediu aos leitores latino-americanos que compartilhassem sua opinião sobre os possíveis ganhadores do Prêmio Pritzker 2019, conhecido como o “Nobel da Arquitetura”. O site ofereceu uma lista de 32 nomes de profissionais que poderiam ter uma chance no prêmio. Os leitores também tinham a liberdade de elencar nomes que não estavam na lista – lembrando que a pergunta não era quem provavelmente ganharia o Pritzker, mas quem deveria ganhar. Carla Juaçaba foi o nome mais citado da pesquisa, com 20,4% dos votos totais.

 

Carla Juaçaba foi a única brasileira a integrar um grupo de dez arquitetos que foram convidados a projetar capelas para o Pavilhão da Santa Sé, primeira participação do Vaticano na Bienal de Arquitetura de Veneza, na 16ª edição do evento. Com essa obra, a arquiteta consagrou sua visibilidade internacional.

 

Em entrevista ao jornal português Público, Carla Juaçaba apresentou qual seria sua definição da capela: “Eu acho que é um projeto de arquitetura. Tem um programa que configura um lugar. É o programa de uma capela: sentar num banco e olhar para o sofrimento que é a cruz”. Para explicar como é que a arquitetura surge ali naquele bosque à beira da água, Carla citou Aldo Rossi: “Com os instrumentos arquitetônicos, nós favorecemos um acontecimento, independentemente de ele acontecer”.

 

Já para a professora de arquitetura da PUC-Rio Ana Luiza Nobre, em artigo para revista Vitruvius, a capela consiste “quatro traves de aço dispostas ortogonalmente, configurando um banco e uma cruz. Sete lastros de concreto enterrados a poucos centímetros no solo. Não há dentro ou fora. Nem piso, parede, cobertura”. Ao descrever a arquitetura de Juaçaba como “Sereníssima”, a professora traz à tona a singularidade dos trabalhos de Juaçaba. “‘Isto é um banco’, indica a estranha placa fixada ali. Não, isto é arquitetura. A arquitetura de Carla Juaçaba.”

 

Capela construída para o Pavilhão de Santa Sé, primeira participação do Vaticano na Bienal de Arquitetura de Veneza, na 16ª edição do evento. Foto: Divulgação.

 

De 2008 a 2013, Carla Juaçaba foi professora na Faculdade de Arquitetura da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). A arquiteta também é palestrante e já ministrou conferências na Harvard Graduate School Of Design e em universidades em Nova York, Texas, Toronto, Portugal, Itália, Chile, Argentina, Paraguai.

 

Confira abaixo a palestra “Empty Space”, de Carla Juaçaba na Harvard Graduate School of Design, em que a arquiteta falou sobre os projetos Pavilhão da Humanidade e a Capela da 16ª Bienal de Arquitetura de Veneza:

 

Carla Juaçaba fala aos estudantes de Arquitetura de Harvard 

 

Juaçaba também participou de exposições, simpósios e bienais no exterior, como a Bienal de Arquitetura Latino-americana, na Espanha; a conferência “Poéticas Espaciais”, na Casa da Arquitetura, em Portugal; e a exposição “In Our Time: a Year of Architecture in a day”, no Metropolitan Museum of Art (MET), em Nova York.

 

Por Beatriz Castro, estagiária, com supervisão de Júlio Moreno

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