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Arquiteta, físico e jornalista discutem perspectivas para as cidades do “amanhã”

Os caminhos e possibilidades para a construção do futuro. Ideias, projetos e perspectivas que fazem de nossas ações de hoje os alicerces do que chamamos de “amanhã”. As cidades e os centros urbanos como pontos de partida dessa discussão. Foi em torno desses temas que girou a primeira mesa-redonda da II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo, realizada na tarde do último domingo (08/10), no Rio de Janeiro.

 

Sob o tema “O mundo da renovação”, com foco nos centros urbanos e a preocupação com sua recuperação e vivacidade, trataram do assunto o físico e curador do Museu do Amanhã do Rio de Janeiro, Luiz Alberto Oliveira, e o jornalista e autor do recém lançado livro “São Paulo nas alturas”, Raul Juste Lores,  sob a mediação da arquiteta e urbanista Maria Elisa Baptista, conselheira do CAU/BR por Minas Gerais.

 

Mesa-redonda “O mundo da renovação”: foco nos centros urbanos e a preocupação com sua recuperação e vivacidade (Foto: Priscila Bispo)

 

O que será o amanhã?


O processo de conceituação do Museu do Amanhã foi o ponto de partida da reflexão proposta por Luiz Alberto Oliveira. Ele contou que foram estabelecidas seis grandes tendências de cenários de “amanhãs possíveis”, alternativos, que dependerão das escolhas feitas hoje. “Causa e efeito – é disso que a ciência fala e é disso que o Museu fala. Aspectos climáticos, sociais e objetivos”, explicou.

 

“Hoje não há mais dúvidas sobre as mudanças climáticas que estão por vir e, dependendo da sua intensidade, vão afetar a economia, a área rural, as imigrações, as tensões sociais e geopolíticas. Ao contrário dos nossos ancestrais, que cresceram em um planeta de ritmo de mudanças climáticas estável, nós vivemos o intenso. Não viveremos como nossos pais, como disse o poeta. Viveremos em um mundo transformado por nossa ação”, afirmou.

 

Luiz Alberto Oliveira, físico e curador do Museu do Amanhã, Maria Elisa Baptista, conselheira do CAU/BR, e Raul Juste Lores, jornalista e escritor (Foto: Priscila Bispo)

 

Acesso e escolha


Do ponto de vista das populações, duas grandes tendências se colocam para as próximas décadas: aumento da população e da longevidade. “Em 200 anos, passamos de 1 bilhão para 7,5 bilhões de habitantes no planeta. Segundo a ONU, em 2050-2060, seremos de 11 a 12 bilhões de pessoas. É difícil imaginar uma condição social estável com tal grau de desigualdade. No Século 20, a cada cinco anos ganhamos um ano de expectativa de vida. E hoje a faixa etária que mais cresce é a dos centenários”.

 

Distância, tempo, espaço são também conceitos em absoluta transformação, segundo o físico. “Um mundo inteiramente novo em que a distância espacial foi abolida. Instalou-se uma espécie de “instante planetário”. Um tipo de vivência que não tínhamos tido”, reflete. Para ele os novos paradigmas tecnológicos devem impactar o planejamento urbano. “Vamos viver envoltos por artefatos tecnológicos cada vez mais invisíveis, lotados de capacidades sensoriais, dinâmicos e diversas funções cognitivas vão estar disponíveis. Todos aprenderemos as linguagens de sinais. Literalmente, falaremos com as paredes”, projeta.

 

Nesse sentido, Luiz Alberto constata que já temos grande acesso a informação, porém acompanhado do desafio de lidar com esse volume de conhecimento. “Imaginem a quantidade de capacidades técnicas que hoje levamos no bolso. Toda a literatura da humanidade, filmes, a Biblioteca de Alexandria inteira. Nosso problema não é mais o acesso, é escolher. E brevemente em toda a parte estaremos interagindo com essas culturas. Teremos o conhecimento, só não sei se teremos o discernimento”, questiona.

 

Luiz Alberto Oliveira (Foto: André Ivo)

 

Jovens querem cidades inclusivas

Em seguida, a provocação apresentada por Raul Juste Lores teve como foco a ideia de que a sociedade e, em especial, os jovens já estão preparados para uma nova cidade, em que as relações, as distâncias, os percursos e as necessidades se transformaram. “Imagine um jovem de 25 ou 30 anos. Ele não vai ter o mesmo emprego para o resto da vida. Ele vai ter uma carreira mais fluida, onde tem que circular, e ter internet gratuita. A importância do carro é infinitamente menor. Usam Uber, pedalam mais, querem circular, socializar”, aponta.

 

Para Lores, “ao mesmo tempo que o Minhocão, em São Paulo, é ocupado aos sábados e domingos por gente correndo e andando de bicicleta, a Avenida Paulista virou mais que a praia do paulistano. Essa demografia já está escolhendo que tipo de cidade ela quer. Ela quer estar perto dos seus pares e não quer estar isolada. E nem o mercado imobiliário nem o governo têm acompanhado essas mudanças”.

 

Nesse sentido, Lores questionou o vazio habitacional do projeto de revitalização urbana da região portuária do Rio de Janeiro, conhecido como Porto Maravilha. “São quarteirões e quarteirões vazios, com prédios de escritórios. E, aos fins de semana, diversos quarteirões a esmo”.

 

“Não precisamos reinventar a cidade, nós já soubemos fazer. Basta caminhar por Ipanema ou pelo centro de São Paulo”, acredita.

 

Uma potência sem educação?


Como vencer os interesses políticos e do mercado, contraditórios e distantes, em muitos casos, das reais necessidades das cidades e da população? Essa foi uma das questões levantadas durante o debate, que instigou os convidados a reflexões e provocações aos arquitetos e urbanistas presentes.

 

Os palestrantes disseram acreditar que é imprescindível que todos assumam suas responsabilidades e seus papeis nesse processo. “Não é o político e o mercado. É a sociedade brasileira que precisa amadurecer. Temos o que merecemos. Se a gente culpar o político e o mercado, a gente está se omitindo”, afirmou Raul Lores.

 

O jornalista Raul Juste Lores (Foto: André Ivo)

 

Luiz Alberto acredita que as principais mudanças já estão em curso. “Teremos que ser nossos próprios ‘Michelangelos’. O mundo é um mundo só. O que acontece na China necessariamente repercutirá aqui”, disse. O caminho proposto? O da educação. “A educação é a ferramenta de ‘fazer gente’. Por ela, conseguiremos deixar de ser essa nuvem de promessas. Sem educação, não haverá Brasil”, disse Oliveira.

 

Já Lores destacou que no Brasil apenas 15% da população têm acesso à Universidade, o que, em sua opinião, necessariamente caracteriza arquitetos, jornalistas, advogados, entre outros profissionais graduados, como parte da elite do País. “E a elite não é de pensar muito fora da sua caixinha. No meu livro, falo muito da Arquitetura dos anos 1950, mas na época 82% das crianças de 5 a 9 anos estavam foram da escola. Naquela década, nós criamos 1500 estatais, criamos Brasília, mas não dávamos a mínima para educação. A ficha da sociedade brasileira vai ter que cair. O Brasil, acriticamente, aceitou que iria virar uma potência sem educação”, afirmou. Ainda assim, Raul Lores se diz otimista. “Os mais jovens estão do nosso lado e entendem que a cidade melhor não é aquela segregada”.

 

Para Luiz Alberto Oliveira, “o aspecto mais relevante de conversar com arquitetos é porque são a mescla mais relevante de Ciência e Arte. E isso é o que vai ser necessário para que a gente possa empreender esse ritmo de modificações que teremos que implementar. A mensagem é de que o amanhã não está pronto. Deste hoje, não sai só um amanhã. Muitos caminhos são possíveis. Amanhã é hoje, porque hoje é o lugar da ação”.

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