EQUIDADE DE GÊNERO

Edileusa da Rocha e Guilah Naslavsky

Edileusa da Rocha, em Recife, em março de 1965, logo antes de ir estudar na França. Fonte: acervo pessoal Edileusa da Rocha.

 

Edileusa Dantas de Oliveira da Rocha nasceu no Recife, em 1933. Estudou na Escola Superior de Educação Física durante o segundo colegial e sempre teve a vontade de cursar Arquitetura, contando com o apoio de sua família.

 

Ingressou no curso de Arquitetura, na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife, em 1953, e se formou em 1957. Buscou a especialização profissional na sua área, principalmente, por meio de cursos ligados ao Urbanismo e desenvolvimento urbano e econômico, além do estudo de línguas.

 

Sempre muito dedicada ao desenho, seu primeiro estágio foi como desenhista de móveis em uma marcenaria. Durante a graduação também deu aulas de reforço em matemática.

 

A busca por formações complementares e o direcionamento para o meio acadêmico, ao invés da atuação em projeto, se constituiu como a única alternativa de se ter estabilidade financeira e como a possibilidade de estruturar uma família, afirmava Edileusa.

 

Ela recebeu a notícia de que o Departamento de Obras Públicas do Estado de Pernambuco precisava de um arquiteto, mas a vaga tinha na descrição a necessidade de fiscalizar as obras, viajar e passar semanas fora. Edileusa conseguiu então a vaga, como arquiteta, para acompanhar as pesquisas urbanas em cidades do interior. Foi contratada pelo Governo do Estado e realizou sua primeira viagem para Timbaúba, em 1958.

 

A arquiteta enfrentou outras dificuldades pelo fato de ser mulher. Perdeu a oportunidade de receber uma bolsa de estudos no Pratt Institute de Nova York para um curso sobre planejamento urbano por não ter recebido uma carta que deveria ser escrita por um de seus professores, mas que nunca foi escrita e entregue a ela. Ela não desistiu e seguiu para a especialização profissional em uma área pouco explorada pelos homens: a pesquisa em planejamento urbano e habitação social.

 

Em 1959 fez o curso de treinamento em problemas de desenvolvimento econômico, realizado em uma parceria das Nações Unidas com o Governo Brasileiro, o que possibilitou que Edileusa fosse contratada pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), que naquela época estava se instaurando e contratando profissionais com expertise na área.

 

Em março de 1961, fez o curso de “O papel da Geografia no Conjunto das Ciências do Homem” ministrado pelo professor Michel Rochefort, no Instituto Joaquim Nabuco de Ciências Sociais. Entre 1965 e 1966, participou do curso “Ordenamento do Território e Ordenamento Regional” e ganhou o diploma de estudos em desenvolvimento do Instituto Internacional de Pesquisa e Treinamento para o Desenvolvimento Harmonizado, em Paris.

 

Edileusa e Armando Holanda, em viagem de trabalho, em Brasília, entre 1963-1965. Fonte: acervo pessoal Edileusa.

 

Entre 1966 e 1967, Edileusa buscou formação no Instituto de Urbanismo da Universidade de Paris, e obteve o diploma exaltando seu trabalho e sua assiduidade.

 

Atuou na SUDENE, onde ocupou diversos cargos de coordenação em política e projetos de habitação social e desenvolvimento urbano e regional, entre os anos 1962 e 1977, e também na FIDEM, entre 1976 e 1977.

 

Nos anos 70 fez parte do SOS Mulher, grupo feminista que defendia os direitos profissionais das mulheres de baixa renda, juntamente com Sônia Correia e Betânia Ávila. Nesse período, atuou como projetista elaborando as primeiras casas-pátio, e criou o projeto de sua própria residência no Lago de Apipucos.

 

Em 1976, foi para a Escócia fazer especialização em “Prática de Planejamento. Em 1981, fez novo aperfeiçoamento profissional realizado, em Paris, na Agência de Cooperação Técnica Industrial e Econômica.

 

Em 1986, Edileusa fez o curso de curta duração: “A urbanização nos Diversos Contextos Históricos e geográficos” promovido pelo mestrado em Desenvolvimento Urbano com o professor Milton Santos.

 

Concluiu e colou grau no curso de mestrado em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, em 1991, obtendo então o título de mestre em Desenvolvimento Urbano.

 

Sua carreira teve diversas oportunidades de cursos no exterior, visando sempre o aperfeiçoamento em questões do urbanismo e habitação social direcionadas a problemática do Nordeste., Nunca se abateu frente às dificuldades enfrentadas em relação à discriminação de gênero presente no campo profissional.

 

Edileusa sempre teve preocupações com as instalações de serviço quando solicitada para projetar edificações habitacionais. A sensibilidade em projetar ambientes preocupados com a situação feminina dentro da sociedade demonstrava seu interesse pelas pautas feministas, bem como sua participação em fóruns e encontros relacionados ao tema, como o Encontro Nacional de Articulação de Mulheres do Brasil, em 1994, no Rio de Janeiro, o Encontro Latino-americano preparatório da IV Conferência Mundial de Mulheres, em Mar Del Plata, e o Fórum de ONG da IV Conferência Mundial de Mulheres – ONU, ambos em 1995.

 

Nessa perspectiva, a arquiteta e urbanista Edileusa de Oliveira Rocha teve uma atitude profundamente comprometida com as questões feministas do Nordeste e o papel da mulher no ambiente doméstico, seja ela como projetista ou como usuária das habitações sociais que projetou nos órgãos em que atuou permitindo que entendesse a problemática da habitação social do Nordeste.

 

 

Edileusa Dantas de Oliveira da Rocha

 

 

Guilah Naslavsky

 

 

Arquiteta formada pela UFPE Guilah Naslavsky concluiu seu mestrado em 1998 e o doutorado em 2004 pela FAUUSP. É professora associada III no DAU/UFPE, do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE e coordenadora do Laboratório da Imagem de Arquitetura e Urbanismo

 

Arquiteta formada pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1992, Guilah Naslavsky concluiu seu mestrado em 1998 e o doutorado em 2004, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). É professora associada III no DAU/UFPE, desde 2010. É professora do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano MDU/UFPE desde 2011 e coordenadora do Laboratório da Imagem de Arquitetura e Urbanismo desde 2013.

Foi professora visitante, entre 2015-2016, na Escola de Arquitetura da Universidade do Texas (SOA/UT), com bolsa CAPES. Publicou Arquitetura Moderna em Recife, 1949-1972, no ano de 2012 e organizou Brasil, Nordeste, Mulheres arquitetas, em 2021. Atualmente é bolsista Fulbright (2021/2022).

 

 

Entrevista com a pesquisadora

 

  1. Explique a sua pesquisa resumidamente (metodologia, variável e unidade de análise, recorte temporal).

Pesquisa em acervos da Escola de Belas Artes de Pernambuco, registrando as arquitetas formadas pela escola, o ano de ingresso e de formatura, e depois pesquisando suas trajetórias profissionais por meio de entrevistas e pesquisas em periódicos e acervos pessoais com um recorte temporal de 1948 até 1976.

 

Essa pesquisa foi elaborada em conjunto com minhas alunas de iniciação científica do PIBIC UFPE. Maria Luiza Rocha, Rafaela Lins e Letícia Toscano.

 

 

  1. O que te motivou a pesquisar sobre o tema?

A percepção da invisibilidade das arquitetas.

 

 

  1. Qual a relevância da(s) arquiteta(s) pesquisada(s) para a historiografia da Arquitetura e do Urbanismo?

Grande relevância. As arquitetas pesquisadas atuaram em diversas áreas e muitas delas chefiaram escritórios. Continuam a despeito do talento, sendo discriminadas e não têm até hoje o mesmo reconhecimento que seus pares masculinos.

 

 

  1. Comente os dificuldades e/ou especificidades enfrentadas pela(s) arquiteta(s) pesquisada(s) no exercício profissional relacionadas ao fato de ser(em) mulher(es)?

O machismo e misoginia presentes em nossa sociedade até hoje. Sobretudo na área de construção civil.

 

 

  1. Indique link(s) ou arquivo(s) para demais informações sobre a sua pesquisa, ou artigos publicados relacionados ao tema (podendo incluir referências bibliográficas de outras autorias).

 

Trabalhos completos publicados em anais de congressos:

 

NASLAVSKY, Guilah; VALENCA, M. L. R. M. . As ‘outras’do ‘outro’:Pioneiras arquitetas no Nordeste Brasileiro: migrações, gênero e regionalismo.. In: 13o. Seminário DOCOMOMO Brasil, 2019, Salvador. Arquitetura moderna brasileira. 25 anos do Docomomo Brasil. Todos os mundos, um só mundo. Salvador-BA: Instituto dos Arquitetos do Brasil. Departamento da Bahia., 2019. p. 1-14. Disponível AQUI.

 

Artigos completos publicados em periódicos:

 

NASLAVSKY, Guilah; VALENCA, M. L. R. M. ; LINS, R. S. . Os Saberes Localizados da Prática das Arquitetas no Nordeste Brasileiro. CADERNOS DE PÓS GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO (MACKENZIE. ONLINE), v. 21, p. 107-127, 2021.

 

NASLAVSKY, Guilah. Tradição do Nordeste brasileiro na obra de três arquitetas: Lina Bo Bardi, Janete Costa, e Neide Mota Azevedo-Financiamento CAPES. In: 7 Docomomo Norte Nordeste, 2018, Manaus. 7 Docomomo Norte Nordeste. Manaus: UFAM. Disponível AQUI.

 

Livros publicados/organizados ou edições:

 

NASLAVSKY, Guilah; GATI, A. H. (Org.) . Brasil, Nordeste, mulheres arquitetas: migrações, gênero e regionalismo. 720. ed. Recife: Editoria Universitária da UFPE, 2021. 176p .

 

Capítulos de livros publicados:

 

NASLAVSKY, Guilah; VALENCA, M. L. R. M. ; GATI, A. H. Pioneiras arquitetas em Pernambuco? migrações, gênero e regonalismo. In: Guilah Naslavsky; Andréa Gáti. (Org.). Brasil, Nordeste, Mulheres Arquitetas: migrações, regionalismo, gênero. 1ed.Recife: Editora UFPE, 2021, v. , p. 40-64.

 

NASLAVSKY, Guilah; CARNEIRO, Ana Rita Sá . Da habtação popular à paisagem do Nordeste: Uma reflexão sobre regionalismo e gênero. In: Guilah Naslavsky e Andréa Gáti. (Org.). Brasil, Nordeste, mulheres arquitetas: migrações, regionalismo, gênero. 1ed.Recife: Editoria UFPE, 2021, v. 1, p. 104-125.

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