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“Em defesa do projeto, Rosa Kliass nunca se rendeu ao mercado”

rosa

 

Em nome da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP)  tenho esta noite, a honra de dizer algumas palavras sobre a  fundadora da nossa entidade há quarenta anos  atrás.
Mas como falar da Rosa fundadora da ABAP sem falar da Rosa criadora. Como falar da Rosa fundadora de uma entidade e sua compreensão da necessidade de especialização sem falar das suas criações, de seus projetos.
 

E como falar da arquiteta, que moldou uma profissão, que elaborou projetos de parques e jardins, em São Paulo e outras cidades brasileiras, sem mencionar as mudanças que trouxeram ao entorno, qualidade de vida, conforto ambiental, benefícios sociais e até econômicos. Os parques por ela desenhados, sempre respeitando as realidades locais, a fisiografia dos terrenos, a vegetação encontrada, mudaram a paisagem local e atraem visitante de bairros mais distantes, e se tornaram também atraentes pontos turísticos.
 

E como falar de seus  projetos, sem falar da Rosa Kliass amiga de todas as horas, carinhosa e generosa há mais de de 50 anos, e dona de um invejável bom humor. Que ama a vida, arquiteta brasileira, paisagista de fama internacional
 

Ao pensar na noite de hoje, me perguntei   aonde e quando conheci a Rosa Kliass, quando nos falamos pela primeira vez.
 

E então lembrei que conheci a Rosa no melhor lugar para conhece-la: no seu ambiente de trabalho! Numa praça no centro de São Paulo, na Vila Buarque, bairro habitado por arquitetos que montaram seus  escritórios e residências no centro, próximos ao Instituto dos arquitetos em São Paulo. Foi na Praça da Biblioteca Monteiro Lobato que encontrei a Rosa pela primeira vez. Jovens, empurrando os carinhos de nossos bebes, me senti encorajada pelo privilegio da maternidade, de me aproximar da  arquiteta que tanto admirava, e que estava também acompanhada pelo seu  filho, o querido Paulo Kliass.
 

Estávamos no ano de 1964, poucos meses após o Golpe militar, e talvez na mesma data de hoje, 9 de  junho. A vida tem seus mistérios, e nos reserva muitas surpresas.
A  praça, era passagem obrigatória dos colegas para seus escritórios, para o IAB na Bento Freitas. Passou a ser, também, um lugar aonde recebíamos noticias sobre os acontecimentos políticos, e principalmente sobre a prisão de colegas arquitetos, artistas, e a brutal violação dos direitos humanos, que sofriam no DOPS e no COBAN.
 

Pouco podiam fazer os arquitetos, a não ser juntar um pouco de dinheiro, alimentos, roupas para as famílias dos presos, levar adiante noticias, ou abrigar por uma noite um colega perseguido, com muito medo de sermos indiciadas, presas e torturadas somente por participarmos de ações humanitárias.
 

Nesta Praça soubemos do assassinato de Wladimir Herzog.
 

Rosa e Wladimir Kliass colegas arquitetos,  moravam  com os filhos e trabalhavam na rua Major Sertorio num pequeno sobrado. Wladimir, filho de músicos ilustres, e Rosa, São Roquense de nascimento, até hoje cheia de amor e lindas historias sobre a sua cidade natal, sobre os pais emigrantes russos, respeitados e queridos em São Roque.
 

Rosa chegou a cidade de  São Paulo menina para estudar no Colegio Estadual Roosvelt.
 

Aos 11 anos morando com uma irmã  no Bom Retiro, pegava o bonde todos os dias e ia alegremente para escola. É esta alegria no coração que a Rosa traz até hoje que ilumina seus trabalhos e as relações de  quem tem o privilegio de conviver com ela.
 

A Rosa seguiu firme nos seus estudos, e ingressou na FAU USP, faculdade de arquitetura de São Paulo, de onde saiu em 1955 com especial interesse na arquitetura paisagística, disciplina ministrada pelo californiano de origem portuguesa Roberto Coelho Cardoso.
 

E aqui cabe também lembrar o primeiro diretor da Faculdade de Arquitetura, o Professor Anhaia Mello, com sua visão ainda hoje contemporânea que considerou que a formação do arquiteto urbanista não poderia prescindir de noções de paisagismo e convidou o paisagista  Roberto Coelho Cardoso, que a época trabalhava com Burle Marx, para professor na cadeira de paisagismo. Formação Generalista.
 

Apesar de projetar, no inicio da sua carreira, residências e  interiores, o verde sempre enriqueceu seus projetos. Quando se tornou prefeito de sua cidade natal, convidou a colega do grupo escolar, Rosa, a redesenhar o largo São Mendes. A qualidade do projeto elaborado com outra colega, lhe rendeu o Prêmio da Prefeitura de São Paulo no XXIV  (24) Salão paulista de Belas Artes em 1959.
 

Rosa Kliass colaborou com o saudoso colega, o arquiteto Jorge Wilheim, em muitos planos Diretores, sendo o plano Diretor de Curitiba 1965-1966, pioneiro no estabelecimentos de padrões e critérios para criação de um sistema de áreas verdes, a partir da analise de condições  urbanísticas e paisagísticas existentes e das demandas propostas no Plano.
 

O plano elaborado com equipes locais, se consolidou nas administrações do urbanista Jaime Lerner. Vale salientar que desta forma se iniciam para além de projetos, propostas de políticas urbanas, que Rosa Kliass procurou desenvolver em seus trabalhos .
 

Em São Paulo implantou o primeiro projeto de áreas verdes elaborado num espaço cedido pela Prefeitura, no parque Ibirapuera. No contrato, uma exigência um tanto quanto “sui generis”: a montagem de um escritório, com mesas de desenho, réguas TÊ, luminárias e tudo mais que um escritório de arquitetura exigia.
 

Este escritório foi o embrião do DEPAV, Departamento de Áreas Verdes de São Paulo. Este departamento serviu de exemplo para Prefeituras de outras cidades, chamou a atenção sobre a necessidade de aumento de áreas verdes e arborização de ruas em áreas urbanas.
 

O contrato durou dois anos e foram projetadas 44 praças, além do Plano de áreas verdes que conscientizaram os órgãos municipais quanto a escassez de áreas verdes na cidade. Desta forma, se iniciava uma política pública para o  aumento de  número de praças e de acesso a um maior numero de habitantes a  áreas verdes, ao lazer e à redução da poluição. Foram projetadas 44 praças, porém poucas foram implantadas. Destes projetos prevalecem ainda tão somente A Praça do Por do sol, e a Benedito Calixto. Outros, ainda que projetos icônicos da cidade, como Avenida paulista,  Pça Julio Prestes, Parque do Morumbi,  Vale do Anhangabaú, .
 

Lamentavelmente muitos projetos, foram deturpados e outros não foram implantados.
 

O Projeto do Vale de Anhangabaú, objeto de concurso publico em 1984, marco urbano da cidade, esta sendo reformado pela prefeitura, para adequação aos novos usos da cidade, desta vez sem a presença da Autora, ou sem um novo concurso. Se seguiram a este primeiro ícone da cidade outros projetos de praças e parques, e mais recentemente o parque da Juventude, que não deixa de ser o testemunho da  maturidade profissional da arquiteta, e que mudou a vida do bairro de Santana, antes marcado pelo edifício que abrigava a prisão de Carandiru de triste e violenta memória.
 

Rosa teve participação em projetos de jardins em edifícios residenciais e comerciais, convidada por empresários de visão, que entenderam que seus empreendimentos se tornavam mais atraentes com jardins de qualidade. Assim, Rosa Kliass realizou diversos projetos para construtora Hindi que são bem preservados até hoje.
 

Vale lembrar que Rosa Kliass não se rendeu ao mercado. Em seus depoimentos, ela menciona a importância do envolvimento com  a concepção e os conceitos que um bom projeto deve ter. Uma solicitação inadequada não pode ser aceita sem apontar as suas fragilidades, abre aspas: “ O profissional precisa assumir um compromisso pessoal com a qualidade de seu produto. Não há escusa para fazer algo que você mesmo considera de menor qualidade. Se você projeta algo menor, é porque não é capaz de realizar mais do que aquilo”.  Rosa considera que “atender o mercado de qualquer maneira não cria nem amplia  o mercado, ao contrario, desvaloriza esse mercado. Limita oportunidades, deseduca clientes e enfeia a cidade”. Este é um dos princípios éticos que a Rosa nos ensinou e procurou imprimir na criação da ABAP.
 

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Nina Vaisman

A ABAP começou a tomar forma na cabeça de Rosa, a partir de viagens de especialização que se iniciaram em 1969, para os Estados Unidos, onde teve contato com profissionais de  renome  internacional  na área de de urbanismo e paisagismo; visitou departamentos municipais, estaduais e federais, e principalmente, universidades onde o paisagismo era protagonista. Isso lhe permitiu um enorme conhecimento  das atividades na área de arquitetura da paisagem. Em 1970 tomou conhecimento com a International Federation of Landscape Architects, IFLA, através de anais da entidade que lhe foram cedidos pelo Manfredo Grunvald, editor da revista Acropole, e imediatamente se tornou membro da associação.
 

Em 1975, participou  de uma seção técnica no Texas, onde conheceu outros profissionais brasileiros também filiados a IFLA, como o arquiteto Fernando Chacel, com quem iniciou uma grande amizade e parceria. Neste congresso, Rosa foi estimulada a implantar no Brasil uma associação que reunisse os arquitetos que realizavam projetos de paisagismo, e assim em 1976 no escritório de Rosa Kliass, num sobrado na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, com a presença de 29 arquitetos que atuavam na área, nasceu a ABAP, da qual a Rosa foi a primeira presidente. Ela filiou a entidade à IFLA, que solicitou a organização de um congresso Internacional no Brasil. Rosa  teve a ousadia, junto com outros colegas, para em 1978, realizar em Salvador na Bahia, o Congresso Internacional de Paisagismo. Além do apoio dos colegas baianos, teve a seu lado Arilda Cardoso, do Rio Grande do sul; do Rio de janeiro, Fernando Chacel e de São Paulo, Benedito Abud e  Luciano Fiaschi, entre outros associados. Participaram mais de 250 colegas, da Nova Zelândia a Escandinávia, e Japão que participou com um numero grande de delegados, e vários estados do Brasil. Com recursos absolutamente escassos, quando Rosa me contou o trabalho que enfrentou, me dei conta do enorme esforço dispensado e do qual saiu vitoriosa, como em tudo que ela se envolveu na vida.
ROSA KLIASS PERCEBEU SER OPORTUNO CRIAR UM COLETIVO PROFISSIONAL QUE COMPARTILHASSE DE MANEIRA ÉTICA, A ABERTURA E CONSOLIDAÇÃO DA REALIZAÇÃO DE PROJETOS DE ARQUITETURA PAISAGÍSTICA, SOMANDO JUNTO A CATEGORIA PARA MULTIPLICAR O CAMPO DE ATUAÇÂO PROFISSIONAL.
 

Vale lembrar que após o reconhecimento da ABAP pelas demais entidades profissionais, principalmente pelo IAB, o segundo passo para reconhecimento da profissão de paisagismo foi o Encontro Nacional de Ensino de Paisagismo em escolas de arquitetura e urbanismo no Brasil a ENEPEA.
 

Nesses 40 anos da consolidação da profissão de arquiteto paisagista, Rosa acompanhou o desenvolvimento da profissão, da Associação e foi uma presença incansável na  Criação do Conselho de Arquitetos e Urbanistas, que nos permite cuidar do profissional de arquitetura, e torna-lo membro proativo na criação de cidades mais acolhedoras e saudáveis.
 

Aprendo sempre nos encontros com Rosa. Ela consegue colocar questionamentos para reflexão e ideias para se  desenvolver nos projetos. Lembrando o doce livro de Saint Exupery, onde o pequeno príncipe estava sempre preocupado em regar a sua rosa que apareceu solitária no seu pequeno planeta, a Nossa Rosa Kliass plantou muitas ROSAS no nosso país, e principalmente ensinou muitos de nós, que hoje somos mais de 7000 arquitetos atuantes no Brasil a plantar, a trabalhar com o espaço, e integrar homens  e natureza, no campo e na cidade.
Obrigada, Rosa!
 

São Paulo, 09 de junho de 2016

Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana à Rosa Kliass

 
 

Além desse texto, compõem a homenagem:
Rosa Kliass: uma aula magna no cerrado

Projetos de destaque

Entrevista exclusiva de Rosa Kliass para o portal Arquitetura para Todos

“Ao fazer uso dos espaços da cidade, o paulistano, avaliza a minha intervenção na paisagem de SP”, diz Rosa Kliass – Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana

Segundo Rafael Birmann, “Não adianta discutir com a Rosa. Ainda bem: ela sempre tem razão, o projeto fica melhor”  – Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana

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Publicado em 17/06/2016

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