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Entrevista: projeto recifense representa o Nordeste na 15ª Bienal de Veneza

Lula Marcondes, Bruno Lima e Chico Rocha: trio compõe o único escritório do Nordeste brasileiro a participar da Bienal de Arquitetura de Veneza 2016. (Foto: Karina Morais)

 

“O projeto deixa o cenário armado para as ações humanas funcionarem da forma que a gente sonhou”. A fala do arquiteto Lula Marcondes resume a visão de mundo do escritório O Norte Oficina de Criação, do qual é integrante juntamente com Bruno Lima e Chico Rocha. O engajamento do grupo com a arquitetura social conferiu-lhe uma grande missão: será o único escritório do Nordeste brasileiro com representatividade na 15ª Bienal de Arquitetura de Veneza, na Itália, onde vão expor o projeto da Escola Novo Mangue, construída na comunidade do Coque, em 2000.

 

O projeto foi um marco na carreira do trio composto por Bruno, Chico e Lula, cuja trajetória teve início nos tempos de faculdade. Formados pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em 1998, começaram a realizar trabalhos que exploram ao máximo as possibilidades da arquitetura. No portfólio constam participações em atividades sociais, edições de livros e projetos arquitetônicos residenciais e urbanísticos dentro e fora de Pernambuco. Com isso, em quase 18 anos de carreira, O Norte cumula alguns importantes reconhecimentos – em 2004, faturou o prêmio Jovens Arquitetos, conferido pelo IAB; já em 2010, a Revista AU o elegeu um dos 25 escritórios de arquitetura mais promissores do país, sendo o único do Norte/Nordeste na lista.

 

Em entrevista ao CAU/PE, o trio relata como é possível aliar arquitetura e responsabilidade social, conta como surgiu o convite para participar da Bienal de Veneza e compartilha ideais que direcionam o trabalho de O Norte, que podem ser sentidas fortemente através da Escola Novo Mangue, que, através de uma arquitetura humanizada, ajudou a mudar a realidade de crianças e famílias da comunidade do Coque.

 

1) Como apareceu a oportunidade de vocês realizarem esse projeto?

 

Chico Rocha – Em 1999, a ONU havia lançado uma campanha que apontava o Recife como a quarta cidade mais violenta do mundo e a comunidade do Coque era estigmatizada como a mais violenta da cidade. Então, a Unicef, em parceria com a ONG Umbu-Ganzá, disponibilizou recursos para a construção de um equipamento urbano na área. Em diálogo com a comunidade, ficou definido que o empreendimento seria uma escola e foi estabelecido o local onde ela seria construída. Nós já tínhamos feito um trabalho prévio na comunidade. Por indicação, participamos de um concurso e nosso projeto foi contemplado.

 

2) Vocês já tinham participado de algum projeto assim antes? Qual a ligação de vocês com a causa social?

 

Lula Marcondes – A gente trabalha junto desde a faculdade, realizando trabalhos e participando de concursos. A Escola Novo Mangue, no entanto, foi o grande projeto do escritório, que realizamos logo após a graduação. Nessa trajetória de quase 18 anos de O Norte, nos articulamos com projetos diversos e ações ligadas ao social. Já fizemos um trabalho com comunidades indígenas; tivemos uma ação junto ao projeto Boca do Lixo, em Peixinhos; atualmente temos o Ateliê Vivo, projeto no qual convidamos estudantes e profissionais de outras áreas para conhecerem os processos de desenho e construção na arquitetura; também realizamos ações pro bono para quem não tem acesso a arquiteto. Essa coisa da responsabilidade social sempre nos tocou individualmente e acabou sendo a cola que nos uniu desde a época de faculdade.

 

3) Vocês acreditam que a universidade tem papel importante em incentivar essa atuação social?

 

Chico Rocha – As instituições públicas são um grande celeiro para esse debate. Algumas particulares ainda estão ligadas às demandas do mercado, mas estão começando a abraçar a arquitetura como questão social. Na nossa época, tínhamos uma visão muito vertical, de que desenhar cidade e edifício eram coisas distintas. Hoje, a tarefa da construir o edifício e a cidade está combinada, é algo que permeia toda a formação do arquiteto. Isso vem para questionar a permeabilidade entre público e privado, não no sentido do que é estatal ou capital, mas do ponto de vista de garantir espaços onde as pessoas possam circular e se encontrar. Essa é uma visão que tem ajudado a gerar pequenas soluções que redesenham a cidade, pois capacitam profissionais para terem atenção a esses aspectos e às necessidades da população.

 

4) Vocês tentaram levar um pouco disso para o projeto da Escola Novo Mangue? Como foi o desafio de concretizar o projeto?

 

Lula Marcondes – De cara, nós tínhamos um conflito. A Prefeitura pedia que o prédio da escola tivesse uma atitude defensiva em relação a possíveis vulnerabilidades, como depredação, furto e outras ações. Por outro, a comunidade afirmava que esse tipo de edificação gerava espaços inadequados, com pouca iluminação e ventilação, por exemplo. Então nossa missão foi conciliar as duas demandas: é um edifício que não tem janelas, ele se abre para o céu. Buscamos, a partir de soluções como caixas de pergolado, jardins internos e paredes porosas, saídas para fazer o ar circular e a iluminação chegar no espaço. Outro fator relevante é que o edifício, em formato de L e vazado, comporta linhas que são convidativas à livre circulação de pessoas. Além disso, a escola é voltada para o rio, trazendo a natureza para a vivência didática dos alunos.

 

5) Com base nessa experiência, vocês acreditam que a arquitetura pode ser uma ferramenta de mudança social?

 

Bruno Lima – O projeto da Escola Novo Mangue cumpre o dever a que se propõe, pois traz em si uma arquitetura humana. Fazendo uma análise do projeto, a arquitetura gerou ali uma situação que facilitou a ação humana do jeito que a gente imaginou. Posteriormente à construção, houve um trabalho da primeira diretoria que foi fundamental para revitalizar o mangue. Antes o terreno em volta da escola era completamente árido; hoje, a natureza ali foi recuperada. Então, através da arquitetura, a gente ajuda a abrir um leque de vozes, dialogando com outros setores da sociedade. O arquiteto pode e deve se envolver dentro desse grande debate, pois isso faz com que ele também se reveja e incorpore a opinião do outro no seu campo de atuação profissional. Cada um tem o direito de dizer a cidade que quer construir e viver.

 

6) E o convite para apresentar a escola na Bienal de Veneza, como aconteceu?

Bruno Lima – Existe um grupo curatorial que chegou até a gente, pedindo a escola e outros trabalhos que permeassem o tema da edição deste ano (Reporting from the front ou, em português, Relatos do front), que aborda justamente essa questão da arquitetura no campo social. Essa temática ajuda a deslocar o arquiteto da realidade dele, tirá-lo daquele ambiente de grandes nomes e projetos suntuosos, que foi, em certos momentos, o foco da bienal, para inseri-lo numa teia muito mais ampla. A Escola Novo Mangue é um exemplo disso, pois ela só foi possível por uma ação que envolveu a comunidade, a ONG, a Prefeitura, a diretoria de ensino… Isso é colocar a arquitetura na horizontal, discutindo com os mais diversos agentes sociais. A bienal, hoje, enxerga arquitetos que pontuam em sua carreira ações em sintonia com o debate contemporâneo e com a sociedade.

• Conheça mais sobre O Norte Oficina de Criação em http://onorte.arq.br/.

 

 

Projeto inclusivo da Escola Novo Mangue foi fundamental para viabilizar a recuperação do meio ambiente no entorno (Fotos: Francisco Rocha)

 

 

Salas de aula da Novo Mangue contam com soluções criativas de luminosidade e ventilação (Fotos: Mateus Sá)

 

FONTE: CAU/PE

 

Publicado em 04/05/2016

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