ARTIGOS

“A habitabilidade” – artigo do arquiteto e urbanista Washington Fajardo

O Inova Urbis é um negócio social que presta serviços de arquitetura para moradores das favelas da Rocinha, Vidigal, Vila Canoas e Parque da Cidade. Eles já fizeram mais de 300 projetos de reforma para lares nessas comunidades. Segundo seus dados, cerca de 70% desses projetos estão em obras, viabilizadas pelos próprios moradores. Atualmente eles fazem uma média de 12 projetos por mês no escritório localizado na Estrada da Gávea. Abriram mais um, em São Paulo, na favela Paraisópolis.

 

Os projetos não tem custo para os clientes. Os moradores procuram esse escritório popular de arquitetura e são atendidos como se estivessem em um atelier de arquiteto famoso. Seus sonhos e demandas são ouvidos, uma equipe vai até a residência, faz o levantamento do espaço, arquitetos e estagiários trabalham a solução que é discutida com o cliente. Novas planta baixas são feitas, maquetes eletrônicas, imagens em realidade virtual e bate-se o martelo com a família.

 

Especificações de materiais são elaboradas, orientações técnicas fornecidas, estimativas de custos desenvolvidas e assim o feliz dono de um projeto de arquitetura começa a se organizar para viabilizar obra, buscando empreiteiros e mão de obra, que estão ali na própria favela. Fazem orçamentos e planejamento financeiro para realizar o sonho de morar com mais qualidade. O Inova Urbis avalia que as pessoas conseguem concluir a reforma de 1 a 2 anos após receberem o projeto. Não fazem projetos de expansão da casa, apenas de reformas, para evitar adensamentos indesejáveis.

 

Os projetos de arquitetura são patrocinados por um grande varejista do setor de material de construção e bricolagem, de origem francesa, que desde o final de 2015 começou a apoiar o projeto.

 

O Inova Urbis surgiu de uma visão do administrador Alban Drouet durante um período sabático em 2012. Ele colaborava com uma ONG que atuava na Rocinha e observou como algumas casas eram melhores que outras. Percebeu que a necessidade por arquitetura poderia virar demanda. Formulou um plano de negócios e buscou apoio na FAU UFRJ para conhecer melhor as patologias construtivas encontradas nas casas da favela. Infiltrações, umidade, instalações elétricas precárias, acessibilidade, escadas mal dimensionadas, cômodos sem ventilação, ausência de revestimentos, fazem parte da paisagem construída da cidade, mas são fatos cotidianos que tiram a saúde dos moradores em problemas respiratórios ou no absurdo índice de tuberculose.

 

Apesar de haver lei federal desde 2008 que diz seu Artigo 1º: “assegura o direito das famílias de baixa renda à assistência técnica pública e gratuita para o projeto e a construção de habitação de interesse social, como parte integrante do direito social à moradia previsto no Art. 6o da Constituição Federal”, que por sua vez diz: “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”, não há muito interesse dos governos em realizar a nossa lei magna.

 

Não há política habitacional no Rio há décadas. A assistência técnica não sai do papel. Os POUSOs, os Postos de Orientação Urbanística Social, são mais uma ação sem continuidade, esquecidos como as UPPs começam a ser. Viram apenas dados sem rostos. A estática do IBGE mostra que 22% da população do Rio de Janeiro vive em “aglomerados subnormais”, nome sociologicamente isento para um território aparelho reprodutor de sub-cidadania.

 

As políticas públicas não estão nos lugares onde deveriam estar. Mas lá na Estrada da Gávea ou na Via Apia estão pessoas que insistem em existir apesar da omissão. Como me disse Alban, “a população criou a Rocinha com seus próprios recursos e esforço, fazendo de 0 à 80%. Queremos ajudá-los a chegar à 100%”. Ana Luiza Brandão é a arquiteta responsável pelo escritório. Na sua equipe de 7 estagiários, 3 são estudantes de arquitetura moradores da própria Rocinha. Ana Luiza me contou como desenvolveram uma linguagem própria de projeto arquitetônico e de desenhos técnicos para lidar com espaços que não têm ângulos retos. Diante da realidade complexa, criatividade e trabalho árduo criam respostas. Há esperança.

 

Se governos que não implementam a assistência técnica para melhorias habitacionais, a sociedade civil se dá as mãos e não faltam boas iniciativas. A ONG Soluções Urbanas, da arquiteta Mariana Estevão, desde 2008 desenvolve o projeto Arquiteto de Família no Morro Vital Brazil em Niterói. Em São Paulo, o Programa Vivenda já fez mais de 900 reformas em casas na favela Parque Ibirapuera sem nenhum investimento público, simplesmente contando com a capacidade de recursos dos próprio moradores. Singelos e dignos.

 

Quem está nascendo nesse momento nas manjedouras das favelas cariocas? Conseguiríamos perceber, entre becos, valas e casas sem habitabilidade, inovações? O Inova Urbis demonstra que é possível. Estamos vendo s sinais? No chão sujo dos presépios subnormais cariocas nascem invenções que os palácios não enxergam. Viva o Natal!

 

Washington Fajardo é conselheiro federal suplente do CAU/BR pelo RJ. E-mail: [email protected]

 

 

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