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Joice Berth: “Enfrentamos na arquitetura o estigma de fazer apenas serviços leves”

“Não bordamos almofadas aqui”. A frase, atribuída a Le Corbusier para negar emprego a Charlotte Perriand, foi lembrada pela arquiteta e urbanista Joice Berth como exemplo dos estigmas associados às arquitetas. Militante sobre questões como gênero e raça, especializada em direito urbanístico e colunista do site Justificando, Berth falou ao CAU/RJ sobre desafios enfrentados pelas mulheres no exercício da Arquitetura e Urbanismo. A entrevista abre uma série de debates promovidos pelo Conselho no mês de março. Entre eles, o evento “Arquitetura: substantivo feminino”, no dia 6. 

 

Joice Berth (Foto: Arquivo Pessoal)

 

CAU/RJ: Como é a sua trajetória profissional?

 

JB: Eu me formei tarde, como grande parte das mulheres negras graduadas deste país. Primeiro, formei uma grande família, e depois saí na luta para completar o que havia iniciado e ficou pendente por conta de diversos problemas que se seguiram. Ainda quando estagiava, fui trabalhar em uma grande empresa de engenharia social de São Paulo, que tinha projetos muito bacanas, e eu fui para a equipe de regularização fundiária. Foi fantástico. Encontrei-me totalmente. Depois disso, trabalhei em outros projetos também nessa área (regularização fundiária), mas focada em urbanismo e direito urbanístico. Até me especializei em Direito Urbanístico pela PUC de Minas Gerais. Trabalhei com remoção de famílias em áreas de risco, desapropriação, avaliação de imóveis. Montei um escritório com uma amiga, mas não deu muito certo porque não tínhamos verba para mantê-lo. Acabei me dedicando à pesquisa sobre gênero, raça e cidades. Estou ensaiando para encarar um mestrado, pois já tenho tese construída sobre o tema. Acabei, por conta das pesquisas, engajando na militância e ganhando visibilidade por conta disso. Atualmente, sou assessora parlamentar e colunista do Justificando, site focado em Direitos Humanos e Política em geral.

 

CAU/RJ: Quais são os desafios enfrentados pelas arquitetas e urbanistas?

 

JB: Quando entendemos a estrutura da nossa sociedade, entendemos também os desafios enfrentados por mulheres no campo profissional. Apagamento, desvalorização, exclusão nos momentos de poder e decisão, desumanização, divisão sexual do trabalho, que confia à mulher funções ditas “femininas”, capacidades e bagagem cultural sempre colocadas à prova, assédio moral, entre outras coisas.

 

CAU/RJ: E pelas arquitetas e urbanistas negras?

 

JB: Todos esses problemas que citei estão relacionados à questão de gênero, ao machismo e à misoginia, que são opressões que estruturaram e estruturam toda a sociedade. Quando falamos em mulheres negras, somamos todas as violências de gênero às violências raciais. Ou seja, uma mulher branca entra em um espaço e vivencia todas essas situações violentas. Uma mulher negra nem entra nesses espaços e quando entra é para cumprir a cota ou servir de escudo contra-acusações de racismo. Ainda tem a questão do colorismo, que faz com que haja um “modelo” de mulher negra mais suportável para a pessoa branca: a mulher negra miscigenada. Quanto mais se distancia das características negras, maior é a incorporação nos meios da “branquitude”, mas a arquiteta e urbanista não vai se ver livre das situações de racismo. Muito pelo contrário.

 

CAU/RJ: Embora as mulheres sejam maioria na arquitetura e urbanismo (62,5%), poucas são lembradas como grandes arquitetas e urbanistas pelo público em geral ou conquistaram grandes prêmios de arquitetura. A que se deve essa invisibilidade?

 

JB: Essa invisibilidade se deve à estrutura machista em que nossa sociedade se estabilizou. Mulheres na arquitetura enfrentam, ainda hoje, o estigma de fazer apenas serviços “leves”, ou seja, decoração, detalhamento, coisas relacionadas à estética e à arte, etc. Esse é um ponto. Outro é que muitas mulheres, infelizmente, não se conscientizaram suficientemente sobre sua posição social enquanto mulher dentro de uma sociedade que tem alicerce machista. Então, muitas vezes, observo não apenas na arquitetura e urbanismo, mas de modo geral, que mulheres aceitam essa posição em que são colocadas porque, no fundo, acham que merecem. Em uma sociedade como a nossa, não basta apenas conscientizar e cobrar de quem está no topo da pirâmide de privilégios. É necessário também a conscientização entre quem está sendo oprimido sobre sua condição. Tem uma história triste que eu li em algum lugar, sobre um dos arquitetos que eu mais admirava, que mostra muito bem como a mentalidade machista também está presente na arquitetura, que foi quando Le Corbusier não aceitou no seu escritório a arquiteta Charlotte Perriand e, segundo consta, teria dito “Não bordamos almofadas aqui”. Esse pensamento, ainda existe.

 

CAU/RJ: Você considera que este cenário tem se modificado?

 

JB: Tem surgido muitas iniciativas de mulheres, dentro da arquitetura, trabalhando para virar esse jogo e isso é muito animador. Em especial, mulheres mais jovens estão formando coletivos e espaços de discussão sobre essas questões. Mas é preciso que isso adentre também os espaços acadêmicos e os escritórios. Homens precisam discutir também, precisam se perguntar porque se sentem tão confortáveis atuando em um meio majoritariamente masculino, sendo que o quadro de profissionais é tão feminino. Precisam se tocar sobre as ausências e entender o ônus que isso tem representado na atuação profissional individual e coletiva e o que isso interfere na imagem que o arquiteto e urbanista tem diante da sociedade. Dentro dos espaços acadêmicos o que se fala é que o profissional de arquitetura trabalha para o outro, para a sociedade, mas fora, a atuação é elitista e reflete totalmente as incongruências sociais.

 

CAU/RJ: Quais arquitetas e urbanistas são referências para você?

 

JB: Kazuio Sejima é um amor que eu tenho. Gostaria de poder absorver tudo que ela representa. Para mim, ela é perfeita em todos os sentidos, técnico, estético, político, etc. Norma Merrick Sklarek é uma referência absoluta. Não só por ser a primeira mulher afro-americana a ter um diploma de arquitetura e a primeira mulher a ter um escritório próprio, mas também pela competência e execução impecável do seu trabalho. Ela não só quebrou uma barreira como deixou cravado na história que, se não ocupamos determinados espaços, é porque nos impedem e não porque não temos talento. Denise Scott Brown que, além de arquiteta, é assumidamente feminista. Tem a Sara Zewde, tem a Odile Decq, que é incrível! Alisson Williams, Zaha Hadid, Lina Bo Bardi, etc.

 

CAU/RJ: Na sua avaliação, a imprensa contribui para dar mais visibilidade aos arquitetos? De que forma?

 

JB: A imprensa trabalha demais com estereótipos de todos os tipos. Estereótipos são ruins porque estimulam o lado “iludido” do ser humano. Nunca vi nada na imprensa, a não ser especializada, que valorizasse a importância e o trabalho do profissional de arquitetura. Mas, por outro lado, penso também que os próprios profissionais criaram uma aura de superioridade tão grande que dificulta muito a compreensão de sua importância. É um meio muito hermético e elitizado, o que é uma pena. Tenho sorte de ter tido experiências multidisciplinares que me enriqueceram como profissional e como pessoa, pude absorver outras visões sobre a matéria-prima do nosso trabalho que é o espaço físico e as múltiplas interações que ocorrem nele.

 

CAU/RJ: Qual é a importância de o CAU/RJ promover um evento para discutir a questão da equidade de gênero?

 

JB: Importância inegável. Sobretudo em um momento político em que estamos vivendo, onde as pessoas cobram muito dos poderes que elegeram, mas esquecem que não fizeram e não fazem sua parte. Somos muitos, e cada um, em seu meio de atuação, fazendo um pouco, a soma será proveitosa. O CAU/RJ se coloca em uma posição de vanguarda se permitindo discutir assuntos que já não podem mais ficar no subsolo, pois perpassam todas as áreas possíveis, inclusive a arquitetura e urbanismo.

 

CAU/RJ: Como o Conselho pode contribuir para a promoção de um mercado de trabalho mais igualitário para as mulheres?

 

JB: Criando uma frente especializada e empoderando essa frente para que atue de maneira livre e disposta a romper com as desigualdades no cerne delas. Fala-se muito em desigualdade dentro da arquitetura e principalmente do urbanismo, mas ninguém se mostra muito disposto a entender qual a nascente dessas desigualdades e quando elas entram na pauta, as pessoas recuam e esvaziam as discussões. Gosto sempre de citar Angela Davis que diz que, quando se mexe na base, tudo se movimenta junto. A base são mulheres negras, a partir desse entendimento, muitas ações começam a florescer e obviamente terão resultados positivos.

 

Por Marta Valim, Assessora de Comunicação do CAU/RJ

 

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