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Alda, Adriana e Sonia lembram o esposo, pai e arquiteto Lelé

Lelé e Alda com o cachorro Chiquinho

 

 Alda Rabello Cunha, arquiteto (*) e urbanista, viúva de Lelé:

 

“O Arquiteto Lelé

  

João da Gama Filgueiras Lima, ARQUITETO,  foi implacável no exercício ético da profissão. Arquitetura e Urbanismo, para ele, eram OBRA PRONTA. Dos primeiros traços dos estudos preliminares envolvendo todos os projetos complementares, até a entrega da obra urbanizada e pronta.

 

E foi um MESTRE. Ensinou e enriqueceu de conhecimento técnicos e humanos toda uma geração de alunos e profissionais que com ele conviveram no trajeto dessa vida.

 

Assim o vejo como ARQUITETO.”

 

(*) A autora prefere ser chamada de “arquiteto”, não “arquiteta”

 

Adriana e o pai, Lelé

 

Adriana Rabello Filgueiras, arquiteta e urbanista, filha de Lelé:

 

“Um ano sem meu pai

 

Um ano sem meu pai.

 

Durante esse tempo, organizando seu acervo e seus objetos pessoais, destituída da troca de sentimentos e energias que produzimos em nossa convivência diária, as melhores lembranças, gradualmente, sedimentam-se em mim.

 

Meu pai foi importantíssimo na minha formação. Com ele aprendi a amar os animais e a natureza; aprendi o quanto é importante estudar música durante a vida inteira, não parar nunca, e saber tocar um instrumento; aprendi arquitetura e, seguindo seus ensinamentos, tornei-me construtora. Aprendi, acima de tudo, o quanto a ética e a generosidade são primordiais na convivência entre todos os seres vivos do nosso planeta.

 

A cada dia compreendo melhor suas atitudes firmes e inabaláveis relacionadas à profissão. Compreendo melhor seu temperamento reservado e o esforço em jamais permitir que a vaidade sobressaísse.

 

Papai foi um homem simples, que sempre combateu o luxo e a ostentação. Analisando sua obra e refletindo sobre as construções que realizamos juntos, vou compreendendo, cada vez com maior clareza, o quanto essa simplicidade tornou-se essencial em seus projetos, nas soluções construtivas, no despojamento dos espaços por ele criados. Conhecer e dominar as técnicas construtivas, respeitar as possibilidades dos materiais aplicados e, acima de tudo, ter coragem de arriscar e liberdade de experimentar. Meu pai arriscava, sempre. E realizava com disciplina.

 

Somente um homem com seu temperamento, convicto de sua ideologia, poderia dedicar-se com tanto esmero ao desenvolvimento da industrialização da construção, sempre com fins sociais.

 

Hoje, um ano após sua morte, gostaria de poder dizer-lhe o quanto ainda aprendo com sua sabedoria e com a coerência de suas atitudes. Que mesmo sem tê-lo ao meu lado, continuo tornando-me um ser melhor, seguindo seus exemplos.”

 

Lelé com as filhas Sonia e Adriana

 

Sonia Rabello Filgueiras, jornalista, filha de Lelé:

 

“A história da flauta colorida tocada pelo vento

 

É um desafio falar sobre nosso pai. O que primeiro vem à mente (e ao coração) é a imensa falta que ele nos faz. Mas, por outro lado, tivemos o privilégio de colecionar lembranças preciosas.

 

Tive a fortuna de presenciar, por exemplo, um episódio que gravei com detalhes em minha memória. De passagem por Brasília, Lelé foi fazer uma visita ao grande amigo e parceiro Athos Bulcão (outro que nos traz muita saudade). Era uma rotina sagrada sempre que vinha a Brasília. Eu estava disponível e levei-o de carro ao encontro.

 

Neste dia, na clara e agradável sala do apartamento do Athos na 315 Sul, os dois conversaram a respeito de um projeto em Macapá, ao qual meu pai se dedicava na época. Depois de algumas considerações variadas sobre o trabalho, meu pai _ um apaixonado pela música _ disse: “Mas, Athos, sabe que lá (no terreno onde seria implantado o projeto) tem um vento forte permanente? E o local é mais elevado, então, pensei em fazer uma estrutura metálica tubular que produzisse som em vários tons. Uma flauta tocada pelo vento. Seria alta, com uns dez metros, os tubos em forma helicoidal”. E o Athos, imaginando a estrutura, respondeu, daquele seu jeito pausado, manso: “Uma flauta toda colorida…”.

 

E os dois ficaram ali, quietos por vários segundos, comungando aquela possibilidade criativa. Nosso pai quebrou o silêncio, entusiasmado: “Isso! Toda colorida. Vamos fazer?”, perguntou. “Vamos. Você me manda um esboço, vou estudar as cores”, respondeu Athos. Infelizmente não foi possível aos dois concluir mais esta parceria. Marcou-me aquele grande prazer criativo que o trabalho representava para os dois.

 

Como jornalista (uma generalista por, digamos, defeito de origem), invariavelmente me surpreendia quando nosso pai descrevia detalhes inovadores das obras e processos construtivos que concebeu. “Isso dá uma boa matéria”, intuía eu. Sua busca por um trabalho de relevância do ponto de vista social também sempre me encheu de orgulho. Mas a sua força criativa, acredito que consegui compreender sem precisar de tantas explicações. Nosso pai era assim: agarrava uma oportunidade promissora de criar algo novo e, com perseverança e disciplina, perseguia sua execução até o final. Gostava sobretudo da ideia realizada, da obra pronta. Para nossa felicidade, deixou muitas.”

 

 

Clique aqui e acesse à página especial do CAU/BR com entrevista exclusiva e inédita de Lelé.

 

 

Publicado em 20/06/2015.

 

 

6 respostas

  1. Morávamos na mesma vila na Ilha do Governador e dançamos muito nas domingueiras do Jequiá. Que saudades,

  2. Conheci a Adriana Filgueiras Lima enquanto estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo da UnB, E a Sônia Filgueiras Lima jogando basquete na UnB. Estou pensando em fazer uma tese de mestrado sobre a obra do Lélé.
    Gosto da obra do Lélé porque tem muito a ver comigo. Eu fiz 3/4 do curso de bacharelado em Física na UnB embora tenha me dedicado mais a área de Conforto Ambienta para aproveitar os conhecimentos adquiridos nesse curso.
    Talvez tenha que conversar mais com as duas. Em especial a Adriana que deve ter muita história para contar.
    Admiro muito uma obra do Lélé que é o Sarah Kubitchec. Onde f Acho que o Lélé se enquadrou muito bem como o arquiteto que traduziu fisicamente as idéias do seu criador o Aluízio Campos da Paz.

  3. Completando o comentário anterior, a minha formação é como arquiteto. E a formatura também em 1980. Com especialização em Arquitetura dos Sistemas de Saúde(Arquitetura Hospitalar).
    Eu fui desenhista da Divisão de Arquitetura e Urbanismo da SVO de 1974 a 1980. O mais bem avaliado do GDF por sinal. Em especial em 76, 77 e 78. Fizemos no centro urbano, tudo que os criadores de Brasília deixaram ¨por fazer¨, para as gerações futuras de profissionais da área.
    Fiz uma cirurgia de préotese no quadril no Sarah em fevereiro de 2014. O seu pai deveria estar lá. O prof. Paulo Marcos estava lá também. Acho que saímos no mesmo dia.
    Você é a minha arquiteto e eu o seu desenhista.
    O Lelé será para sempre lembrado. Eu morei numa casa do IAPB na 712 Sul, (antiga 35) que foi projetada e detalhada por ele.

  4. Eu gostaria de saber como éque um núcleo urbano para 20 mil habitantes na fazenda Gibóia que nós projetamos no escritório do Paulo Magalhães(e o Marcelo da Rocha participou) se transformou no Novo Gama?
    Então? Sera que eu também sou Urbanista.

  5. Mais importanteo do que falar de mim mesmo é relembrar a memória do grande Lelé. Eu me orgulho muito de ter morado por 37 anos numa residência detalhada por êle. Quando eu era desenhista da SVO, o pessoal mais antigo dizia que eu desenhava no estilo dele. A lápis no papel manteiga ou vegetal. Quer dizer: Citavam ele como exemplo de arquiteto que desenhava naquele estilo. Eu gostaria de confirmar isso. Não estou nem de longe querendo me colocar na dimensão e importância da obra do Lelé, apenas comparavam o meu jeito de desenhar com o dêle. Agora não sou mais desenhista.

  6. Também aprendi muitos fundamentos de arquitetura, simplesmente por morar numa casa projetada e detalhada por uma equipe na qual o Lelé participava. E segundo as histórias que me contavam ele tinha um papel importante
    nessa equipe que tinha também o Werner, construtor de madeira que construiu as esquadrias detalhadas pelo Lelé.
    Este último foi meu companheiro de bebedeiras no Terraço bar, ao lado da galeria W3 que era do seu irmão João, onde ele me contava as histórias daquela época.

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