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Lusia Luxsa: “Nunca desistam dos seus sonhos e não se importem com as dificuldades”

 

“Nunca desistam dos seus sonhos e não se importem com as dificuldades, que com certeza irão aparecer. A concretização dos sonhos deve ser o verdadeiro motivo para a gente viver!”, esta mensagem é da arquiteta e urbanista Lusia Luxsa. O nome indica que a profissional não é brasileira. Ela nasceu na Síria, mas com 23 anos, a ainda estudante de arquitetura e urbanismo precisou fugir da sua terra natal, empurrada pela guerra que continua assolando o seu país. “Estudava em Tishreen e precisei me transferir para a Faculdade de Aleppo, já devido à guerra. Os confrontos foram se alastrando pela Síria e, quando estava no terceiro ano de Arquitetura, minha faculdade foi destruída por bombas. Não havia outro jeito: precisávamos deixar a Síria e o Brasil foi o único país a abrir as portas para a nossa família”, lembra bastante emocionada.

 

Segundo estimativas do Centro Sírio de Pesquisas Políticas (SCPR, na sigla em inglês), 470 mil pessoas já morreram desde o início da guerra civil síria, em 2011. Outras cinco milhões deixaram o país, calcula o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Entre elas está a família de Lusia, que desembarcou no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em São José dos Pinhais, no ano de 2013. Aliás, foi nesta cidade que Lusia e o marido viveram por um ano até se mudarem para Curitiba. “O começo não foi nada fácil. Tínhamos muitas dificuldades com as novas língua e cultura”, conta.

 

Ingresso na UFPR: a marca do destino

 

Apesar dos problemas, a jovem não havia desistido do seu sonho que era o de concluir o curso de Arquitetura e Urbanismo. Devido às circunstâncias em que vivia, a matricula em uma faculdade privada estava fora de cogitação.

 

Certo dia, ao passar pelo Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Lusia foi convencida pelo esposo – também arquiteto, a procurar ajuda na instituição. Ela conta que, além dos documentos pessoais, sempre andava com os seus registros de estudante de Arquitetura que trouxe da Síria. “Era final de mês de dezembro e já passava das 17h. Não tinha quase ninguém no Centro Politécnico, mas o vigia do campus nos orientou a procurar o Prédio da Administração”. Ela e o marido encontraram apenas uma pessoa no edifício: Paulo Chiesa, que por uma situação do destino, era o então coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPR.

 

A cerimônia de colação de grau de Lusia Luxsa ocorreu em agosto do ano passado, no Teatro da Reitoria da UFPR. (Foto: Grupo MARIOS)

 

O professor recorda ter explicado para Lusia que era preciso fazer vestibular para entrar na instituição. “Quando ela me mostrou os documentos de estudante e o visto de refugiada resolvi procurar a Reitoria da UFPR. A universidade já tinha um trabalho com a Acnur e eu, inclusive, tinha feito uma disciplina sobre o direito internacional dos refugiados”. A situação serviu de modelo para a UFPR discutir e aprovar uma resolução específica que abriu caminho para a universidade acolher refugiados nos seus cursos de graduação. “Fomos a segunda universidade federal do país a fazer isso. Nos baseamos numa resolução da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pioneira nesse trabalho, para acolher estudantes refugiados aqui também”, relata Chiesa.

 

Em março de 2014, Lusia estava matriculada no curso da UFPR. “Como ela me procurou num período de férias, consegui preparar a documentação e realizei o processo de equivalência das disciplinas rapidamente. Com a aprovação da resolução, a única exigência dos conselhos da universidade era que a Lusia deveria passar por um treinamento intensivo de português por pelo menos um ano, já que falava e compreendia muito pouco a nossa língua. Com a ajuda de colegas, rapidamente ela conseguiu se adaptar ao curso”, recorda Chiesa.

 

Lusia se formou em agosto de 2017. Em seu Trabalho Final de Graduação, a agora arquiteta e urbanista projetou um centro de acolhimento para refugiados que chegam ao Brasil. Em referência à jouri – uma flor que os sírios costumam plantar no pátio de suas casas – o Centro Jouri inclui espaço para hospedagem, refeitório, salas de aula, auditórios, locais para assistência médica e uma área administrativa para lidar com documentação e ajudar as pessoas refugiadas a se prepararem para o mercado de trabalho e a se integrarem à comunidade.

 

A arquiteta e urbanista síria trouxe o diploma e solicitou o registro definitivo no CAU/PR.

 

Registro no CAU

 

A história de superação de Lusia é apenas uma dentre as 6.820 profissionais paranaenses. No estado, as mulheres representam 64,46% do total de arquitetos e urbanistas registrados.

 

Nesta terça-feira (06), Lusia veio até a sede do Conselho de Arquitetura de Urbanismo do Paraná (CAU/PR) para solicitar o seu registro definitivo no CAU. Com o diploma da UFPR e a cópia do documento em mãos, ela foi recebida pela equipe de Atendimento do Conselho. “Fui muito bem atendida aqui e os meus documentos foram encaminhados. Inclusive, já me ensinaram como devo preencher corretamente um Registro de Responsabilidade Técnica (RRT)”, agradece Lusia.

 

À procura de emprego

 

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgados na semana passada, 12,7 milhões de trabalhadores estão desempregados no país.

 

A arquiteta e urbanista síria faz parte desse contingente, mas não perde a esperança. “A conquista de um emprego é o meu novo desafio”, resume. Enquanto isso, Lusia segue fazendo trabalho voluntário para a Mostra Container, um grupo que trabalha com arquitetura sustentável.

 

Com o marido e a cunhada, Lusia montou uma banda que se chama ‘Alma Síria’. O grupo faz apresentações em eventos com o objetivo de transmitir a cultura síria para o povo brasileiro.

 

Fonte: CAU/PR

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