EQUIDADE DE GÊNERO

Lycia Conceição Alves e Telmi Adame

Lycia Conceição Alves

 

Lycia Conceição Alves, primeira arquiteta formada na Bahia. Fonte: Marcos Santana (2014).

 

Lycia Conceição Alves foi a primeira arquiteta formada no curso de Arquitetura do Estado da Bahia. Nasceu em 1904, mulher negra, descendentes de escravos e de origem humilde, faleceu em 2014. Era órfã e foi criada por madrinhas.

 

Ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) no curso de Arquitetura, em 1930, e se formou em 1936. Quebrou paradigmas, pois não era comum mulheres cursarem a faculdade naquela época muito menos um curso como o de Arquitetura. Era a única mulher presente no curso (a próxima mulher a ingressar no curso surgiu 19 anos mais tarde).

 

Durante a faculdade, Lycia economiza o pouco que tinha como, por exemplo, os recursos das passagens de transporte para utilizar com os materiais do curso de Arquitetura.

 

Atuou na Sociedade e Amigos da Marinha (SOAMAR), onde foi sócia efetiva, e como topógrafa no Serviço de Águas e Esgotos da Bahia (atual Embasa), onde, novamente, fez história como a única e a primeira mulher a ocupar tal cargo.

 

Lycia conseguiu reunir também uma série de homenagens durante sua trajetória profissional. Esteve envolvida em projetos de cunho social, foi fundadora da Associação Brasileira Protetora dos Animais (ABPA-BA) e recebeu honraria pela Câmara Municipal de Salvador pelas atividades em defesa dos animais.

 

Casa onde residia Lycia Conceição Alves, também projetada por ela. Fonte: Telmi Adami e Shirlei Pimenta (2019).

 

Sua maior realização arquitetônica é considerada a casa em que residia, que antes de sua intervenção era uma simples ruína, localizada na Travessa Firmino, no bairro do Politeama. Era uma casa germinada na qual Lycia morou até sua morte e, atualmente, segundo as últimas informações se encontra abandonada.

 

Telmi Adame

 

Telmi Adami é arquiteta e urbanista, mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (PPG-AU/FAUFBA)

 

Com o título “Nenhuma a menos: ampliando a história da Arquitetura Moderna em Salvador (1936-1969), Telmi Adame concluiu sua dissertação de mestrado pelo programa de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (PPG-AU/FAUFBA). Sua pesquisa teve como foco de observação a atuação das mulheres como parte essencial da narrativa do período descrito, incluindo a arquiteta Lycia Conceição Alves.

 

Telmi é arquiteta urbanista graduada pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Na graduação, realizou duas pesquisas pelo programa institucional de iniciação científica da UFES. A primeira sobre as relações de gênero na prática profissional em Arquitetura e Urbanismo no Espírito Santo (2013 e 2014) e a segunda com foco nas relações de gênero e Arquitetura na prática profissional (2015 e 2016), ambos trabalhos apresentados na jornada de iniciação científica da UFES, sendo o segundo condecorado como um dos melhores da jornada de 2016. Concluiu a graduação com a mesma linha de pesquisa, Arquitetura e Gênero. Pós-graduada em Arquitetura pela Universidade Federal da Bahia, onde também teve participação no grupo de pesquisa “Cadê as arquitetas Baianas?”, orientada pelo docente José Carlos Huapaya Espinoza.

 

 

Entrevista com a pesquisadora

 

 

  1. Explique a sua pesquisa resumidamente (metodologia, variável e unidade de análise, recorte temporal). 

O trabalho busca por meio da confluência entre um aprofundamento referencial, a análise documental de arquivos da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia e entrevistas com arquitetas formadas em Salvador, analisar contextos, práticas e discursos historiográficos da formação à atuação profissional, dentro da área de Arquitetura e Urbanismo.

 

E, assim, compreender como foi construída a história da Arquitetura moderna, em Salvador, tendo como foco de observação a atuação das mulheres como parte essencial dessa narrativa. O período contempla de 1936, ano que se forma a primeira arquiteta baiana, até 1969. Entre as 71 arquitetas formadas nesse período (1936-1969) nos aproximamos, através de entrevistas, de doze trajetórias de vida.

 

 

  1. O que te motivou a pesquisar sobre o tema? 

A história das mulheres, e sobretudo das arquitetas, me intriga desde da graduação, ao longo dos anos fui desenvolvendo pesquisas, artigos, e aprofundei no tema com o trabalho de conclusão do curso. No mestrado sabia que poderia desenvolver e colaborar ainda mais para o levantamento histórico de contribuições de arquitetas esquecidas e ocultadas e, por isso, segui com o tema.

 

 

  1. Qual a relevância da(s) arquiteta(s) pesquisada(s) para a historiografia da Arquitetura e do Urbanismo? 

Podemos responder que estudar as mulheres faz parte de uma tarefa de contribuição social e historiográfica. Isso fica evidente ao analisar como as mulheres têm sido, durante séculos, excluídas da história.

 

Na historiografia da Arquitetura precisamos buscar arquitetas que por diversas razões não foram incluídas igualmente quando comparadas aos seus chefes e/ou companheiros, heroicos protagonistas históricos. Buscar a história das arquitetas formadas em Salvador preenche uma linha histórica contada inicialmente apenas com figuras masculinas, traz à tona nomes, projetos, conhecimentos quase perdidos, com poucos registros, mas igualmente relevantes. Levanta questões de invisibilidade que devemos ter conhecimento para que não se repitam. Além disso, para nós, mulheres, tem um peso ainda maior: o da representatividade.

 

 

  1. Comente os dificuldades e/ou especificidades enfrentadas pela(s) arquiteta(s) pesquisada(s) no exercício profissional relacionadas ao fato de ser(em) mulher(es)? 

Durante a formação acadêmica, segundo as arquitetas entrevistadas, nenhum tipo de discriminação de gênero ocorreu, pelo contrário, todas elas relatam união entre os alunos que trabalhavam em conjunto e eram respeitosos. Essa visão, porém, é discutível porque se trata da perspectiva de uma geração de mulheres que tinham valores enraizados em uma cultura onde o machismo era enxergado apenas em atitudes escancaradas de ódio ou de violência contra as mulheres.

 

Atualmente a interpretação de atitudes machistas se dá de forma mais visível, obviamente muitas mulheres ainda estão distantes de uma consciência feminista que lhes permite perceber comportamentos discriminatórios no cotidiano, mas, se comparado ao século XX, temos um cenário com um número muito mais amplo de mulheres conscientes sobre o assunto. O que entendemos a partir dessa reflexão é que apesar de ter sido negado por elas qualquer tipo de discriminação, não resta dúvidas de que estavam sujeitas a essa possibilidade e podem apenas não ter percebido ou ter achado irrelevante.

 

No campo profissional, as diferenças entre os homens e as mulheres se torna algo mais visível, isso porque a cobrança da representação de um papel social determinado pelo machismo parece transparecer mais nas arquitetas depois de formadas. Dois pontos se destacam nesse contexto: o fato da esfera pública ser a principal área de atuação profissional de quase todas as arquitetas entrevistadas e o casamento e a maternidade, experiências vivenciadas por quase todas.

 

Todas as arquitetas entrevistadas trabalharam, em algum momento, em estruturas governamentais e afirmam o quanto essa vivência foi agregadora profissionalmente. Entre elas, a tarefa mais citada é o Plano Diretor da Cidade de Salvador, que reuniu muitas delas devido à grande demanda de trabalho de uma cidade em expansão. Quando questionadas sobre a vontade de ter seu próprio escritório, uma parte informou nunca ter pensando sobre e a outra mencionou a palavra coragem, afirmavam não ter tido coragem para tal feito. Nesse ponto apresentamos discordância total, pois coragem é algo que todas demostraram, principalmente, em suas atividades profissionais. Logo, sob nossa análise existem outros motivos que não as aproximaram do meio profissional privado, são eles:

 

1 – No meio privado os projetos arquitetônicos eram negociados e vendidos pelos próprios profissionais. Se hoje ainda temos uma gama de pessoas que considera que arquitetas mulheres são responsáveis apenas por projetos de interiores, tratadas como inferiores ou incapazes de conceber um projeto arquitetônico, do início até meados do século XX esse pensamento era ainda mais significante, o que poderia reduzir propostas de trabalho a elas. Consideradas como o sexo frágil, as mulheres dificilmente eram incentivadas a protagonizarem seu próprio negócio. Até mesmo na imaginação das próprias arquitetas o encorajamento e o desenvolvimento individual parecia algo distante de ser concretizado. Um elemento alarmante nesse aspecto é o fato de que pelo menos duas arquitetas, Lêda Serra S. Peixoto e Ivaneuza M. Leite Lima, eram casadas com arquitetos, donos de seus escritórios. Elas discutiam e participavam indiretamente de alguns projetos, mas de maneira informal. Ivaneuza afirmou inclusive ter se arrependido por não ter montado seu escritório, pois gostaria de ter tido essa experiência profissional;

 

2 – Trabalhar com projetos particulares também perpassava a competitividade. Em uma profissão com número maior de homens do que de mulheres, elas teriam de provar sua competência de forma muito mais expressiva que eles. Afinal, o esperado era que eles ocupassem esse lugar profissional, enquanto as mulheres eram facilmente vinculadas ao cuidado da casa e da família. Um exemplo dessa competitividade é o caso de Arilda Maria C. Sousa, segundo Maria Ângela B. Cardoso (sua irmã), um dos motivos que lhe possibilitava atuar como autônoma em meio à concorrência era o baixo custo de seus projetos, seu escritório era em casa, o que cortava custos, podendo assim diminuir os valores repassados para os clientes.

 

3 – Incentivados desde a infância a serem confiantes e autônomos, os homens buscavam prestígio e o reconhecimento de seu trabalho como indivíduo, o que dificilmente aconteceria em grandes obras públicas, salvo alguns arquitetos como Diógenes Rebouças. Uma obra pública era feita por muitas mãos e, via de regra, levava o nome da intuição responsável e não dos profissionais executores. Nas falas das arquitetas entrevistadas foi demonstrado a inexistência dessa preocupação. O único objetivo delas era realizar o trabalho com a melhor qualidade possível e trazer melhorias para a cidade, o reconhecimento era coletivo. Sendo assim não demostraram ambições, como, por exemplo, a de se tornarem figuras públicas e arquitetas reconhecidas.

 

O casamento em si, segundo a fala das arquitetas, não impediria as profissionais de desenvolver proeminentemente suas carreiras, mas podemos afirmar é que as mulheres de forma geral eram cobradas socialmente a cumprir um papel de adjutora ao marido, priorizando auxiliá-lo no prover familiar a um crescimento pessoal. As arquitetas, inevitavelmente, estando inseridas nesse contexto social não estavam imunes a essas priorizações. Após o casamento era comum a chegada dos filhos. Um, dois, três até cinco filhos. Entre as entrevistadas, aparecem dois perfis: as que se entregaram integralmente à maternidade nos primeiros anos de vida dos filhos e as que continuaram suas atividades profissionais, interrompendo-as apenas nos primeiros meses de licença maternidade. Entre elas, não transpareceu nenhum arrependimento na escolha de ser mãe, pelo contrário, falam dos filhos com orgulho e acreditam também que a maternidade não afetou suas trajetórias como arquitetas, relataram ter um suporte familiar e profissional. Com o suporte recebido, era possível dar continuidade ao trabalho, mas “[…] ao conciliar suas funções profissionais com as de mãe, esposa e mulher reduzem consideravelmente suas possibilidades de sucesso e ascensão na carreira.” (BRUSCHINI; LOMBARDI, 1999, p.11).

 

 

  1. Indique link(s) ou arquivo(s) para demais informações sobre a sua pesquisa, ou artigos publicados relacionados ao tema (podendo incluir referências bibliográficas de outras autorias). 

https://repositorio.ufba.br/handle/ri/33006

 

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