EQUIDADE DE GÊNERO

Maria do Carmo Schwab e Julia Pela Meneghel

Maria do Carmo Schwab em seu álbum de formatura na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro; Fonte: arquivo NPD, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), acesso em junho de 2018.

 

Maria do Carmo de Novaes Schwab nasceu em 1930, em Vitória (ES). Filha de Affonso Schwab e Zelia de Novaes Schwab, uma tradicional família do estado.

 

Após concluir o segundo grau foi para o Rio de Janeiro, em 1949, iniciar o curso de graduação em Arquitetura. Se formou pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1953, com colação de grau em janeiro de 1954.

 

Durante sua formação estudantil trabalhou com Affonso Eduardo Reidy, considerado um dos precursores da Arquitetura e Urbanismo modernos no país, tendo atuado em projetos de grande importância como, por exemplo, o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Moraes, conhecido como Pedregulho.

 

Foi influenciada pelas ideias de Alfredo Agache, francês responsável pela elaboração do plano diretor da cidade do Rio de Janeiro, que foi até a cidade de Vitória por convite de seu avô, o então prefeito da cidade. O urbanista ficou instalado em sua residência, o que possibilitou que Maria do Carmo acompanhasse de perto seu trabalho e se interessasse pela profissão.

 

Logo após sua formatura, retornou ao Espírito Santo. Montou seu escritório e iniciou sua atuação profissional com grande abrangência no mercado privado, mas ainda com presença em diversas instituições.

 

Foi a primeira mulher a atuar na área de Arquitetura e Urbanismo no Espírito Santo. Seus primeiros trabalhos foram o planejamento do bairro Aribiri e a casa Heliomar Carneiro da Cunha, ambos na cidade de Vila Velha.

 

Em 1954 foi nomeada para exercer um cargo de engenharia na divisão de obras públicas do Espírito Santo. Projetou grupos escolares, jardins de infância, mercados, prefeituras para o interior do estado, igrejas, o Instituto Anatômico para a Faculdade de Medicina, entre outros.

 

Maria do Carmo foi aprovada no concurso da Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), em 1956, para provimento de cargos iniciais da carreira de arquiteto no Ministério da Agricultura.

 

No período de 1955 a 1961, trabalhou como credenciada da Caixa Econômica Federal do Espírito Santo, realizando avaliações e fiscalização de obras financiadas pelo banco.

 

Em 1963 trabalhou junto à reitoria da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), quando organizou e dirigiu o Departamento de Planejamento e Obras (DPO). Neste período, acumulou as funções de DPO e arquiteta da UFES.

 

Maria do Carmo Schwab. Fonte: Arquivo Maria do Carmo Schwab, reunido pela Profa. Clara Luiza Miranda.

 

Também teve papel importante na fundação do Instituto de Arquitetos do Brasil no Espírito Santo (IAB-ES), em 1967, tendo sido vice-presidente e, mais adiante, presidente do núcleo, em 1975.

 

No período de 1972 a 1975 atuou no Centro Tecnológico da UFES. De 1976 a meados de 1977 passou a ocupar a função de diretora da Divisão de Programação Física da UFES.

 

Sua Arquitetura se caracterizou pela “maneira reidyana de trabalhar”, marcada pelo rigor construtivo, preocupação com os detalhes, atenção ao programa e ao conforto, estudo do sítio, do meio urbano e da paisagem e a integração da natureza com a Arquitetura. Em 1981, por problemas de saúde, a arquiteta se afastou de suas atividades.

 

Atualmente, reside em seu apartamento no Edifício Barcellos, projetado por ela e localizado ao lado da casa em que cresceu com sua família.

 

Saiba mais sobre a arquiteta no site. Clique aqui.

 

Maria do Carmo Schwab, ladeada pelo então presidente do CAU/ES, Tito Carvalho, e o conselheiro André Abe, em 2017. Fonte: CAU/ES

 

 

Julia Pela Meneghel

 

Mestranda pelo PPGAU/UFBA, na área de concentração Conservação e Restauro, Julia Pela Meneguel é arquiteta e urbanista formada pela UFES. Sua pesquisa sobre a vida de Maria do Carmo Schwab teve início ainda na graduação com o levantamento de sua obra.

 

Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (PPGAU/UFBA), na área de concentração Conservação e Restauro, Julia Pela Meneguel é arquiteta e urbanista formada pela UFES, em 2019. Sua pesquisa sobre a vida de Maria do Carmo Schwab teve início ainda na graduação com o levantamento de sua obra.

 

Julia se encaminha para a conclusão de sua dissertação focada em pesquisas atuais no estudo da arquitetura moderna do Espírito Santo, na produção arquitetônica de Maria do Carmo Schwab e nas teorias e práticas de intervenção no patrimônio moderno. A arquiteta também cursou, durante um ano da graduação, na Università IUAV di Venezia (2015-2016), pelo programa Ciências Sem Fronteiras.

 

 

Entrevista com a pesquisadora

 

  1. Explique a sua pesquisa resumidamente (metodologia, variável e unidade de análise, recorte temporal).

A minha pesquisa se dedica a discussão da obra arquitetônica da arquiteta capixaba Maria do Carmo de Novaes Schwab, graduada em 1953, pela Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, e com produção ativa entre as décadas de 1950 e 1980, atuando no mercado particular e em uma variedade de instituições públicas.

 

Abrangendo o conjunto da sua obra, tenho dois objetivos principais: a interpretação do processo de construção da linguagem projetual da arquiteta, identificando as continuidades e transformações reconhecíveis no conjunto da sua obra, tanto no recorte temporal, quanto tipológico; e a discussão das relações estabelecidas entre a sua produção e outras arquiteturas, buscando traçar possíveis referências e/ou paralelos a produções contemporâneas.

 

Como metodologia, adota-se a leitura transversal entre trajetória e produção, propondo uma narrativa com foco na própria arquiteta e pretendendo que as indicações para investigação partam da análise direta de sua vida e obra.

 

Para a discussão do projeto arquitetônico, individual e coletivamente são estabelecidos quatro subsistemas de análise, diretamente interligados entre si, cujas relações internas compõem o todo arquitetônico, a identidade do projeto. Sendo eles: Edifício-Sítio, Programático-Funcional, Material-Técnico e Estético-Formal.

 

 

  1. O que te motivou a pesquisar sobre o tema?

Em primeiro lugar, o reconhecimento do pioneirismo de Maria do Carmo Schwab enquanto arquiteta mulher e capixaba no contexto de introdução da arquitetura moderna no estado do Espírito Santo. Após uma primeira aproximação, acrescenta-se a relevância quantitativa e qualitativa de sua produção arquitetônica, com mais de 240 projetos levantados, além da impressionante trajetória profissional, de atuação ampla e diversificada, que se torna inspiração.

 

Além disso, une-se o desejo de ampliar o conhecimento e o reconhecimento de sua trajetória e produção, tanto no contexto local, como a nível nacional, considerando, inclusive, a crescente perda de exemplares de sua obra, seja por demolições, descaracterizações ou pela dispersão dos acervos.

 

 

  1. Qual a relevância da(s) arquiteta(s) pesquisada(s) para a historiografia da Arquitetura e do Urbanismo?

À nível local, fora sua representatividade como primeira arquiteta e urbanista atuante no estado, sua abrangente trajetória e produção a colocam como uma das personagens de maior relevância no contexto da arquitetura moderna capixaba, tendo significativa contribuição para o processo de modernização do estado do Espírito Santo. Em diversas frentes, sua atuação no mercado privado e junto a instituições públicas, desde a Secretaria de Viação e Obras Públicas até a Universidade Federal do Espírito Santo, com foco na implantação e consolidação do campus universitário, apresentam seu compromisso com a disciplina da arquitetura e urbanismo e com o desenvolvimento local.

 

Para o reconhecimento da profissão, Maria do Carmo Schwab também se dedica por meio de  uma ampla atuação junto ao Instituto de Arquitetos do Brasil, contribuindo para a fundação do núcleo estadual do IAB-ES, em 1967, ao lado do arquiteto Élio Vianna, e ocupando, em seguida, a vice-presidência (1968/71) e, mais adiante, a presidência (1974/75) do departamento. Enquanto presidente, é nítida sua articulação a nível nacional, tendo recebido no estado a Reunião do Conselho Superior (COSU) do IAB, em 1974, contando com a participação de arquitetos de quase todos os departamentos do país. Além disso, pesquisas recentes a têm indicado como a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente de um departamento do IAB no Brasil, destacando-se, mais uma vez, seu pioneirismo profissional nacionalmente.

 

Além disso, a aproximação à sua trajetória e produção apresenta a constituição de uma obra autêntica e particular, que vale ser reconhecida, promovendo a necessidade de discutir a arquitetura moderna brasileira em sua diversidade, para além do eixo hegemônico Rio de Janeiro – São Paulo, e, assim compreender a participação de outros/novos atores e a relevância das expressões locais.

 

 

  1. Comente os dificuldades e/ou especificidades enfrentadas pela(s) arquiteta(s) pesquisada(s) no exercício profissional relacionadas ao fato de ser(em) mulher(es)?

A própria arquiteta, ao ser questionada sobre o tema, diz não ter enfrentado dificuldades relativas às questões de gênero na sua atividade profissional, afirmando ter recebido grande apoio de seus colegas de profissão e ter sido um processo espontâneo o crescimento da demanda de trabalho.

 

Para além de sua capacidade técnica, supõe-se que a influência da família Novaes Schwab no contexto local e a sua relação com a burguesia do momento tenham contribuído para a amplitude de sua atuação, bem como para a grande quantidade de projetos desenvolvidos. Ainda assim, sua representatividade enquanto única mulher arquiteta inserida em grande parte dos grupos e instituições profissionais das quais integra, ressaltam o contexto de então, ainda fortemente dominado pelo sexo masculino.

 

 

  1. Indique link(s) ou arquivo(s) para demais informações sobre a sua pesquisa, ou artigos publicados relacionados ao tema (podendo incluir referências bibliográficas de outras autorias).

MENEGHEL, J.P. A dimensão dos projetos não construídos: Maria do Carmo Schwab na Universidade Federal do Espírito Santo. In: 7º Seminário Ibero-Americano Arquitetura e Documentação, 2021, Belo Horizonte. Anais do 7º Seminário Ibero-americano Arquitetura e Documentação, 2021. Disponível AQUI.

 

MENEGHEL, J.P.; ALMEIDA, R. H. . A linguagem moderna na arquitetura capixaba: documentação da obra de Maria do Carmo Schwab. In: 13º Seminário Docomomo_Brasil, 2019, Salvador. Anais do 13° Seminário Docomomo_Brasil, 2019. Disponível AQUI.

 

MENEGHEL, J.P.. Documentação como resistência: inventário da obra de Maria do Carmo Schwab. In: 1º Simpósio Científico Icomos 2019 – Espírito Santo, 2019, Vitória. Anais do 1° Simpósio Científico Icomos 2019 – Espírito Santo, 2019. Disponível AQUI.

 

MENEGHEL, J.P.; ALMEIDA, R. H. . Arquitetura Moderna no Espirito Santo: Documentação e Conservação da obra de Maria do Carmo Schwab. In: II Simpósio Científico 2018 – ICOMOS BRASIL, 2018, Belo Horizonte. Anais do II Simpósio Científico 2018 – ICOMOS BRASIL, 2018. v. v.1. p. 3474-3492. Disponível AQUI.

 

[Outros autores]

 

MIRANDA, C. L.. A arquitetura moderna brasileira: experiência e expectativa de modernização do Espírito Santo. In: 9 Seminário DOCOMOMO Brasil, 2011, Brasília. 9 Seminário docomomo Brasil Interdiciplinaridade, experiência em documentação, preservação do patrimônio recente. Brasilia: UnB-FAU, 2011. v. 1. Disponível AQUI.

 

MIRANDA, Clara Luiza. As referências carioca e mineira da arquitetura moderna do Espírito Santo. In: Seminário DO.CO.MO.MO-MG, Arquitetura e Urbanismo Modernos em Minas Gerais: novas fronteiras, novos cenários. 1., 2010. Uberlândia: Universidade Federal de Uberlândia, Campus Santa Monica, 2010. Disponível AQUI.

 

 

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