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Mulheres falam sobre as vulnerabilidades de cidades na pandemia

Cidades mais inclusivas, iguais para todos e pensadas pelos próprios moradores e não apenas pelo poder público. Esta foi a tônica do debate virtual promovido pela associação portuguesa Mulheres na Arquitectura no dia 27 de maio, que reuniu arquitetas e urbanistas e educadoras de diferentes contextos territoriais para discutir as mulheres na cidade e na habitação no enfrentamento da pandemia do coronavírus.

 

 

 

 

As arquitetas e urbanistas brasileiras Stepfanie Ribeiro e Kaya Lazarini relataram na live as experiências dos seus trabalhos e as inúmeras diferenças sociais que afetam a população brasileira, que na pandemia estão mais evidentes. E nesse contexto elas avaliam que as mulheres são as mais vulneráveis.

 

 

Stepfanie Ribeiro acrescentou ao elevado número de contágios por coronavírus nas regiões periféricas das cidades brasileiras o agravante da posição negacionista do presidente Jair Bolsonaro sobre a gravidade da contaminação. “Vivemos um processo caótico e tem relação direta com as políticas públicas de saúde e as consequências das falas do Presidente da República”, avalia a arquiteta e urbanista.

 

 

Para ela, que também é feminista, as desigualdades ficaram mais evidentes na pandemia e não há um olhar interseccional do governo federal na discussão dos dados, que não divulgados, o que dificulta um recorte de gênero ou de raça de quem está sendo afetado pela crise. Para Stephanie é muito simbólica a intervenção da sociedade civil em atos de solidariedade, que decorre da ausência do Estado e é também, uma questão de sobrevivência, tendo em vista que existem pessoas passando fome e outras morrendo porque no seu território sequer existe hospital.

 

 

A arquiteta e urbanista brasileira Kaya Lazarini, que atua na organização USINA CTH com o assessoramento técnico a movimentos populares por moradia, acredita que estamos vivendo um “genocídio com a pandemia e um presidente (do Brasil) que trabalha na chave da morte e não da vida”. No trabalho que realiza, ela enfatizou a participação dos trabalhadores desde a concepção da habitação em que vão residir até a gestão de todo o processo de construção, especialmente as mulheres, protagonistas dos movimentos com os quais a USINA trabalha. “Elas têm papel importante tanto na obra quanto no movimento popular e a grande maioria dos projetos é produzido por mulheres trabalhadoras, por isso, têm questões de gênero que são muito interessantes, como por exemplo definir que no local tenha espaço para uso coletivo”, destaca.

 

“A pandemia pode nos mostrar que a organização da cidade a partir da lógica capitalista precisa ser transformada urgentemente, bem como as relações sociais perpetuadas pelo patriarcado e machismo. As tarefas reprodutivas precisam ser de todos e a sociedade deve se organizar coletivamente”, defende Kaya.

 

Em Luanda, capital de Angola, o confinamento social também revela as contradições da maioria das habitações das áreas periféricas, construídas em tamanhos reduzidos, e que servem para múltiplas atividades. “Estamos confinados nesse tipo de habitação, o que é um desafio para uma família que geralmente é composta por cinco ou seis membros”, relatou durante a live a arquiteta e chefe de Departamento do Ministério do Urbanismo e Habitação da cidade, Ana Inglês. A este fato ela acrescentou o que denominou de violência social, que é a fome e o desemprego enfrentados por esses moradores, em grande parte vendedores ambulantes, que não podem sair casa para trabalhar no momento de pandemia.

 

 

A arquiteta e pesquisadora cabo-verdiana Patti Anahory, outra participante da live, classificou os impactos da pandemia como previsíveis para quem se preocupa com as questões das desigualdades sociais e raciais no território, nas casas e nas cidades. “Para mim ainda é uma reflexão em curso. Até mesmo essas plataformas que temos acesso para fazer esse debate ainda são excludentes. Muitas mulheres não têm o privilégio nem o acesso de participar e trazer suas vozes para este debate, que não é só das arquitetas, geógrafas e pensadoras das cidades, é da sociedade. A busca por maior inclusão no pensar e no sentir, deve ser uma preocupação constante”, defende.

 

 

Em referência a Cabo Verde, Patti Anahory ressaltou a importância de se reconhecer o papel das pessoas que estão no território; de quem está sendo mais afetado pelo coronavírus num país pobre, com muitas desigualdades e onde a cidade construída contabiliza uma grande porcentagem da autoconstrução. “Isso me faz refletir sobre qual é o nosso papel enquanto arquitetas e que temos o direito de pensar o que deverá ser a nossa cidade, claro que justas e inclusivas, mas pensarmos também como exercemos a nossa profissão”, afirmou.

 

 

A questão de gênero também foi destacada pela arquiteta e ativista ambiental portuguesa Sofia Castelo, que vive na Malásia. No programa em que atua no momento sobre as alterações climáticas no Sudoeste Asiático, Índia e Ásia Subsaariana ela destaca que a pandemia do coronavírus acentua as desigualdades com impacto de gênero nas diferentes classes sociais e nos imigrantes, em grande número na Malásia.

 

 

“Avaliamos que neste momento temos uma crise em cascata, em seguida teremos uma crise econômica e depois várias crises climáticas. Os dados que temos sobre as alterações climáticas são alarmantes”, ressaltou Sofia ao informar que nos países próximos do Sudoeste Asiático, em 2050, as cidades vão ter um clima que não existe na face da Terra hoje. Destacou ainda, que os últimos estudos revelam que em 2050, mais de 3 bilhões de pessoas, majoritariamente localizadas nas áreas mais vulneráveis, vão estar expostas a uma temperatura que não permite a vida humana e isso vai impactar brutalmente nas mulheres, no caso da Malásia, porque muitas vezes estão em casa lidando com o cuidado dos idosos, das crianças, sozinhas e sem recursos.

 

 

“Sabemos que em casos de desastres naturais o número de violações duplica imediatamente. Temos que nos preparar e criar mecanismos para defender os mais vulneráveis criando formas de empoderá-los e de lhes dar voz”, defende Sofia.

 

 

Cidades sem medo

 

Na live promovida pela Comissão de Equidade de Gênero (CEG) do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU/PR), em 28 de maio, a arquiteta e urbanista Laís Leão – integrante da CEG-CAU/PR, e a historiadora, geógrafa e cicloativista, Viviane Mendonça, discutiram o direito das mulheres na mobilidade urbana. Elas relataram a ausência de ciclovias nas cidades paranaenses, o que inviabiliza o direito das pessoas de optarem por outras formas de transportes, além dos carros e do transporte público, com capacidade saturada e enfrentando as dificuldades do trânsito.

 

 

As debatedoras destacaram o quanto a disseminação de ciclovias, inclusive das temporárias, seria um avanço e poderia ajudar a população, especialmente nesse momento em que é necessário manter um distanciamento entre as pessoas.

 

 

E as mulheres podem ser as principais beneficiadas. “O padrão de deslocamento da mulher é um zigue-zague e ela prioriza andar a pé, ou é passageira. As mulheres é que deveriam usar as ciclovias, mas elas têm medo”, destacou Laís Leão.

 

 

Segundo Viviane Mendonça esse medo está relacionado a falta de infraestrutura nas ruas, a inexistência de ciclovias e aos altos índices de violência. “Apesar disso as pessoas estão pedalando, é um caminho sem volta. É preciso ter política pública que olhe para os usuários de bicicletas”, reconhece.

 

 

Para Laís Leão a ciclovia temporária seria um avanço em todo o Paraná e se justifica, também, pelo baixo custo, se comparado aos investimentos para a circulação de carros. Destacou o uso rotineiro de bicicleta como fator de promoção da saúde e do bem-estar. “Trabalhar essas formas novas de deslocamento, pensando mais na escala da pessoa é questão de saúde pública”, acredita.

 

 

Esta foi a primeira live no Instagram promovida pelo CAU/PR da série Arquitetura e Urbanismo em Tempos de Pandemia: Cidades sem Medo para Grupos Vulneráveis.

 

 

Acesse outras resenhas de webinars e debates sobre CIDADE E HABITAÇÃO PÓS-PANDEMIA em: https://caubr.gov.br/lives-e-webinars-especial-o-futuro-das-cidades-e-habitacoes-pos-pandemia/

 

 

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