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“Não existe arquitetura hostil, mas desurbanidade, uma cidade hostil” (Nadia Somekh)

O Plenário do Senado aprovou, dia 31 de março, projeto-de-lei que proíbe o emprego de técnicas de “arquitetura hostil” em espaços de uso público.

O projeto foi apresentado após o padre Júlio Lancellotti — conhecido por suas ações humanitárias junto a pessoas em situação de rua em São Paulo — usar uma marreta para remover pedras pontiagudas instaladas pela Prefeitura sob um viaduto da zona Leste da cidade. O protesto do religioso teve grande repercussão e adesão, o que motivou  o relator do projeto, senador Paulo Paim (PT-RS), a acatar  emenda denominando o texto de “Lei Padre Júlio Lancelotti”.
O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil apoia parcialmente o projeto de autoria do senador Fabiano Contarato (Rede-ES). “Concordamos com o mérito, ou seja, somos contra a instalação de equipamentos urbanos como pinos metálicos pontudos e cilindros de concreto nas calçadas para afastar pessoas, principalmente as que estão em situação de rua”, diz a presidente do CAU Brasil, arquiteta e urbanista Nadia Somekh.
O CAU Brasil, no entanto, julga infeliz  a associação entre arquitetura e hostilidade. “A essência da arquitetura é o acolhimento, então é incongruente falar em arquitetura hostil, foi um termo infeliz cunhado por um jornalista britânico e lamentavelmente adotado no Brasil sem uma visão crítica”.
“O que há é desurbanidade, uma cidade hostil, desumana,  como constatamos com as desigualdades crônicas agravadas pela pandemia da Covid-19”, afirmou a presidente do CAU Brasil, repetindo conceito expresso em entrevista para o portal UOL (Canal ECOA) em 2 de março.
“O correto, a nosso ver, seria então usar o termo “intervenção hostil”, mais simples de ser assimilado e difundido pela sociedade”, diz Nada Somekh.
O Conselho acompanhou a tramitação do projeto e teve apoio do senador Alvaro Dias (Podemos/PR),  que apresentou emenda afastando a expressão “arquitetura hostil” do texto, mas ela não foi acatada pelo relator. A tentativa prosseguirá,  agora, durante a tramitação do projeto na Câmara dos Deputados, para onde o texto foi encaminhado.
Ouvida na mesma reportagem do portal UOL,  a arquiteta e urbanista Ellen Yanase (sócia da Satrapia, uma agência de benfeitorias, que une empresas, cidadãos e o poder público para melhorar espaços nas cidades)  concorda com a presidente do CAU Brasil.  “A arquitetura é totalmente contra a hostilidade, ela existe para proporcionar ambientes com qualidade de vida. Quando uma cidade é hostil é porque ela não pensa na arquitetura, não pensa nas pessoas”, afirmou.

2 respostas

  1. Boa tarte, acabo de ver a publicação sobre a PL da Arquitetura Hostil É a segunda vez que vejo o CAU/BR, representado pela presidente Nadia Somekh, questionando e afirmando que o termo arquitetura hostil está errado. Da forma como isso é colocado, o CAU presta um desfavor para a sociedade e realiza um trabalho um tanto autoritário. Eu, durante minha pesquisa de mestrado apresentada em agosto do ano passado, me esforcei em discutir e conceituar a prática de controlar o uso de lugares com elementos hostis. Ela é intitulada “Sem descanso. Arquitetura hostil e controle do espaço público no centro de Curitiba”. Ela está no acervo da UFPR e serve exatamente para fomentar a discussão e o debate, papel que tem conseguido cumprir – ela foi citada no próprio relatório de votação da PL no senado.

    O CAU pode e deve participar das discussões mas com base em estudos já realizados ou em estudos realizados pelo próprio conselho. Não cabe ao CAU, por pura e simples predileção, impor o que está certo ou errado na nomenclatura. O termo “arquitetura hostil” tal como vem sido usado é compreensível para uma grande parcela da sociedade, além de, na academia, referir-se a uma prática bastante específica nas cidades. Como conselho profissional, o CAU parece estar desconectado das discussões acadêmicas e sociais, usando seu poder e visibilidade para, ao invés de proteger e apoiar os profissionais vinculados a ele, minimizar a importância do trabalho de outros arquitetos, pesquisadores e agentes da sociedade civil ligados à questão da arquitetura hostil.

  2. Concordo com a Nadia Somekh…. A intervenção é hostil e não a Arquitetura.
    .Também vejo assim, até porque, um amontoado de pedras sob o viaduto do minhocão, não pode ser chamado de Arquitetura.
    .Foi a saída que o Poder Público encontrou, para não permitir que moradores de ruas, usuários de drogas, assaltantes… etc., utilizassem o viaduto para fins de ocupação / apropriação do espaço.

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