CATEGORIA

“Ao fazer uso dos espaços da cidade, o paulistano, avaliza a minha intervenção na paisagem de SP”

rosa

 

Quero, inicialmente, agradecer ao Vereador Police Neto pela iniciativa e ao conjunto de Vereadores da Câmara Municipal de São Paulo pela aprovação do Título de Cidadã Paulistana que me está sendo outorgado. Agradeço a população paulistana que, ao fazer uso dos espaços da cidade, avaliza a minha intervenção na paisagem desta cidade. Num abraço mais amplo quero agradecer à Sociedade Brasileira pelo acolhimento generoso a todos imigrantes, em especial aos de origem judaica, o que permitiu que eu nascesse na cidade de São Roque. Quero também abraçar o povo de São Roque, que proporcionou anos significativos da minha vida. Agradeço à minha família, meus pais, e meus irmãos, e aos meus filhos Paulo e Sônia, que me apoiaram em toda minha trajetória. Especialmente, aos meus sobrinhos Michel e Ciça pela iniciativa desta homenagem.

 

Emocionada0 encontro aqui, neste momento de grande significação, meus amigos e amigas. Estão aqui também, nesta confraternização, os meus colegas arquitetos, urbanistas, demais profissionais que acompanharam a minha trajetória nesta empolgante lida com o tema da paisagem urbana. Em especial, um amplo abraço aos Arquitetos Paisagistas do Brasil e de outros países, com quem tenho compartilhado a tarefa da valorização da profissão.

 

Nasci em São Roque, filha de emigrantes judeus: pai polonês e mãe, russa. A cidade os recebeu de braços abertos e meu pai iniciou a sua vida como vendedor ambulante, tendo depois se estabelecido com loja de armarinhos e logo mais com loja de móveis. Em seguida, vieram a Serraria e a Fábrica de Móveis José Alembick. Ainda no Século XIX, São Roque contava com um patrono, o Barão de Piratininga, que proporcionou à cidade uma série de benefícios. Entre eles a Estação da Estrada de Ferro Sorocabana e o primeiro “Grupo Escolar” do Estado de São Paulo, em substituição às Escolas Rurais que eram dispersas pelo Município. No entanto, em 1943, quando eu deveria começar a frequentar o Ginásio, tive que, como todos os jovens sanroquenses, recorrer a São Paulo.  Foi quando se iniciou a minha relação com a cidade de São Paulo. Com 11 anos de idade iniciei a minha vida em São Paulo.

 

Às segundas feiras, pela manhã, subíamos, eu e meu irmão, à Estação Ferroviária para tomar o trem para São Paulo, desembarcando na Estação da Sorocabana, na Praça Júlio Prestes. Aqui passávamos a semana, e no sábado, depois das aulas, porque havia aulas aos sábados, tomávamos novamente o trem para passar o fim de semana em casa. A minha vida em São Paulo começou em Santana, na Rua Voluntários da Pátria.  A ida ao ginásio era feita de bonde; cruzava-se o Rio Tietê na Ponte Grande, passando pela Ponte Pequena; percorria-se a Avenida Tiradentes, continuando pela Rua Florêncio de Abreu, chegando finalmente ao Largo de São Bento. Daí, a longa caminhada a ser feita pela Rua Boa Vista até o Pátio do Colégio, em direção à Avenida Rangel Pestana, até chegar ao Ginásio, onde cursei o primeiro e o segundo ciclos.

 

Cursei a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, à Rua Maranhão, em Higienópolis e foi  a partir daí que me envolvi de fato com a cidade. Foi aqui que eu iniciei e desenvolvi as minhas atividades profissionais marcadas pela consolidação da consciência política e profissional da atividade da Arquitetura Paisagística, o que indubitavelmente contribuiu para a melhoria da qualidade de vida em nosso país e particularmente na nossa cidade. A outorga deste Título significa o reconhecimento da minha atuação profissional que, de alguma forma, marcaram a paisagem da Cidade.

 

2016-06-09 TCP Rosa Kliass (37)
Rosa Kliass ao lado do vereador Police Neto na cerimônia de entrega do título Cidadã Paulistana         Foto: André Bueno/Câmara Municipal de São Paulo

 

Em 1967 elaborei, com uma equipe de arquitetos, uma série de trabalhos de Planejamento Paisagístico e de Projetos de Parques e Praças para o então Departamento de Parques e Cemitérios da Prefeitura, que veio a se transformar no Departamento de Parques e Jardins. Como produtos finais resultaram o PLANO DE ÁREAS VERDES DE RECREAÇÃO DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. Foram ainda elaborados projetos para algumas das áreas, sendo que, algumas delas ainda servem como áreas de recreação para os moradores do seu entorno. Como exemplo, cito a Praça Benedito Calixto, a Praça do Pôr do Sol e a Praça Horácio Sabino.

Já na década de oitenta, na gestão do Prefeito Mario Covas, sendo Secretário de Planejamento o arquiteto urbanista Jorge Wilheim, exerci o cargo de Diretora de Planejamento da SEMPLA. Reforçando o lema do Prefeito Mário Covas, Descentralização e Participação, pela primeira vez foi feita a contratação por licitação, de equipes de arquitetos. Os cinco vencedores elaboraram Planos das Administrações Regionais. Os trabalhos foram acompanhados pela equipe de arquitetos da Secretaria e foi adotado o princípio de Participação da População.

Os Planos Preliminares eram apresentados em reuniões públicas nas sedes das Administrações Regionais para as quais era feita convocação dos moradores da região e onde eram ouvidas as observações e reinvindicações feitas pela população. Ainda na Secretaria de Planejamento consegui desenvolver vários programas, entre os quais, o Levantamento da Vegetação Significativa que deu origem a Legislação de Preservação Vegetação da Cidade de São Paulo, vigente até hoje. Como profissional liberal, pioneira na área da Arquitetura Paisagística, tive a oportunidade de desenvolver uma série de projetos de grande relevância que marcaram a sua paisagem.

 

O Projeto da Avenida Paulista em 1973, foi o primeiro projeto paisagístico de via pública elaborado em São Paulo. A Reurbanização do Vale do Anhangabaú, projeto elaborado pelas equipes do meu escritório e do escritório do arquiteto urbanista Jorge Wilheim, foi o vencedor do Concurso Nacional de Projetos promovido pelo IAB de São Paulo em 1986 do qual participaram 93 equipes de todo o país. Outra área urbana da cidade em que atuei, e onde foi possível criar um espaço especial, foi a Praça Júlio Prestes, junto à Estação da Sorocabana, hoje transformada na Sala São Paulo.

A intenção era criar um espaço dedicado a crianças, dado que estava se desenvolvendo um programa de grupos infantis de cidades do interior do Estado.  Nesse espaço deveria ser criado um anfiteatro ao ar livre. Complementando e reforçando o caráter do espaço original, trilhos e um trenzinho ocupavam toda a frente do anfiteatro. Junto à entrada da Sala São Paulo foi criado um amplo espaço, um saguão ao ar livre. Do projeto, infelizmente, hoje não resta nada. A área foi transformada em um vasto piso de concreto. Do Vale do Anhangabaú e da Praça Júlio Prestes, o que restou foram dois lindos cartões postais que consegui adquirir em bancas de jornal.

Tive a oportunidade de elaborar um projeto emblemático. São Paulo ofereceu e a população adotou plenamente o Parque da Juventude, na área do antigo presídio do Carandiru. Este Parque cumpre a função de Parque Regional.

Para finalizar, quero exprimir a minha alegria em constatar que essa relação de dedicação às causas da paisagem e da vida da cidade está sendo comprovadamente reconhecida. Aos amigos que pronunciaram palavras que me acompanharão, incentivando-me a continuar nesta aventura da transformação das nossas paisagens, e a todos que aqui vieram para esta confraternização, um grande abraço.

Muito obrigada!

 

São Paulo, 09 de junho de 2016

Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana à Rosa Kliass

Além desse texto, compõem a homenagem:

Rosa Kliass: uma aula magna no cerrado

Projetos de destaque

Entrevista exclusiva de Rosa Kliass para o portal Arquitetura para Todos

“Em defesa do projeto, Rosa Kliass nunca se rendeu ao mercado”, relata Nina Vaisman sobre Rosa Kliass – Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana

Segundo Rafael Birmann, “Não adianta discutir com a Rosa. Ainda bem: ela sempre tem razão, o projeto fica melhor”  – Cerimônia de entrega do título de Cidadã Paulistana

Links relacionados

 

Publicado em 17/06/2016

MAIS SOBRE: CATEGORIA

NOTÍCIAS EM DESTAQUE

ATENDIMENTO E SERVIÇOS

Central de Atendimento do CAU/BR não funcionará na Sexta-feira Santa

ACERVOS

Seminário TOPOS:  CAU/BR e FAU/UnB promovem debate sobre a importância de acervos e arquivos de urbanismo no país 

#MulherEspecialCAU

“Arquiteta, na solidão da sua profissão, seu nome pede valorização!”, defende Tainã Dorea

Assistência Técnica

Mais médicos/Mais arquitetos: mais saúde para o Brasil (artigo de Nadia Somekh no portal do Estadão)

Pular para o conteúdo