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Entrevista com Pedro Paulo de Melo Saraiva: Nossa elite é ignorante

SEIS DÉCADAS DE ARQUITETURA Formado em 1955, Pedro Paulo de Melo Saraiva foi professor da USP (1962-1975) e da UnB (1968-1969); desde 1992 leciona no Mackenzie. Foto: Luiza Sigulem
SEIS DÉCADAS DE ARQUITETURA Formado em 1955, Pedro Paulo de Melo Saraiva foi professor da USP (1962-1975) e da UnB (1968-1969); desde 1992 leciona no Mackenzie. Foto: Luiza Sigulem

Entrevista a Maurício Puis, Revista Brasileiros

Autor de uma obra extensa e admirável, o arquiteto Pedro Paulo de Melo Saraiva finalmente teve a sua produção compilada em livro. Escrito pelo professor da USP Luis Espallargas Gimenez e publicado pela Romano Guerra Editora, Pedro Paulo de Melo Saraiva, arquiteto expõe de forma precisa e detalhada os projetos mais conhecidos de Saraiva, que até então apareciam apenas em artigos e teses de circulação restrita.

 

Nascido em 1933, Saraiva se formou no Mackenzie, em 1955, um ano depois de Paulo Mendes da Rocha. Na época, além desse curso, São Paulo contava apenas com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. Saraiva conta que os professores do Mackenzie estavam mais preocupados com os processos construtivos, enquanto a FAU estava focada na questão social. Apesar disso, ele e Paulo Mendes da Rocha foram chamados por João Batista Vilanova Artigas (1915-1985) para serem seus assistentes. “Entrei na USP em 1962 para trabalhar com Artigas e com o Paulo Mendes da Rocha, que já estava lá havia um ano. Levantamos questões importantes sobre o papel do arquiteto e o desenvolvimento do País nos anos 1960. Demos a temática da pré-fabricação como um programa a ser defendido pelos alunos”, afirma Saraiva.

 

EDIFÍCIO PORTOVELHO Detalhe da fachada. Localizado em Santos, foi um dos prédios projetados por Saraiva em conjunto com os engenheiros Rubens Paiva e Roberto Zuccolo. Foto: Marcos Piffer
EDIFÍCIO PORTOVELHO Detalhe da fachada. Localizado em Santos, foi um dos prédios projetados por Saraiva em conjunto com os engenheiros Rubens Paiva e Roberto Zuccolo. Foto: Marcos Piffer

Considerado pelo também arquiteto Júlio Artigas (filho de Vilanova Artigas) o melhor professor de arquitetura em atividade no País, Saraiva, que dá aulas no Mackenzie, ressalta a importância dos espaços abertos. “Nossa arquitetura é sem grades, uma arquitetura do espaço aberto. O que se vê ultimamente é que, por causa do problema de segurança, os edifícios têm grades. E elas são cada vez mais complexas. Fazem até eclusas para o carro entrar. Sistemas usados em entradas de bancos servem para habitações. É uma loucura. O único projeto que consta da revista Monolito sobre Higienópolis que não tem grade é o edifício Louveira, do Artigas. Meu prédio na rua Pará também foi feito com pilotis e sem grades, mas houve tanta pressão dos moradores que eu tive de fazer uma grade. Fiz uma elegante.”

 

Mas nem sempre as grades surgem a partir da sensação de insegurança. “Até no Edifício Quinta Avenida, na Paulista, tive de fazer um gradil para obter a aprovação na prefeitura. Isso decorre do quê? Antigamente era obrigatório colocar gradil, é uma herança da Lei das Índias (1573), que tratava da colonização, da ocupação do espaço urbano. Era preciso cercar a propriedade para que bois, carneiros e porcos não entrassem na propriedade alheia. Tudo para que os animais não destruíssem as lavouras. Isso vem da Lei das Índias. A empena cega do prédio não me trouxe problema. Mas Artigas teve problemas para aprovar o Louveira, também em São Paulo. A única questão para aprovar o Quinta Avenida era que ele tinha duas entradas, uma rampa que subia e uma que descia. Isso não estava previsto no Código de Obras. Essa solução nasceu ali e depois se propagou para outros prédios na Paulista.”

 

Saraiva acredita que os entraves para o desenvolvimento da arquitetura brasileira residem em seus principais clientes: o Estado e os empresários. “A nossa elite é muito ignorante. Antigamente as elites paulistanas tinham uma cultura europeia. Toda essa cultura pré-1922 era europeia. Veja os casos de Mario de Andrade, Oswald de Andrade. Hoje não tem mais isso. Há certa massificação e certa falta de consistência na produção das artes em geral no Brasil. E a arquitetura faz parte desse contexto. Havia um senador que morava na casa de um arquiteto americano (Bernard Rudofsky), que teve obras documentadas no livro Brazil Builds (1942). Mas o senador vendeu sua casa na rua Monte Alegre para morar num prédio da Adolpho Lindenberg no Itaim Bibi. Trocar um arquiteto famoso por um Lindenberg é complicado. E isso gera certa angústia.”

 

O arquiteto também enxerga com alguma desesperança as mudanças ocorridas ao longo do tempo. “A cultura que havia quando a arquitetura moderna brasileira surgiu, aqueles políticos e intelectuais, a classe artística, tudo isso mudou, e não para melhor. Essa constante de ter prédios públicos de boa qualidade, de procurar um arquiteto para fazer uma casa de qualidade acontece raramente hoje.”

 

O arquiteto aponta ainda que obras caras quase sempre são executadas por escritórios estrangeiros. “Os projetos especiais não estão sendo feitos por brasileiros. Aquele do Santiago Calatrava (arquiteto espanhol que projetou o Museu do Amanhã), no Rio de Janeiro, é uma taturana bem estranha. A Birmann (empresa nacional que contrata escritórios estrangeiros para seus projetos no País) deixou uns dez prédios aqui, mas os arquitetos que fizeram os edifícios em São Paulo não são bons. João Sayad disse que contratou o Herzog & De Meuron para a São Paulo Companhia de Dança porque os arquitetos brasileiros não sabem fazer teatro. Um absurdo. Participei de um concurso e, entre os meus concorrentes, havia cinco prêmios Pritzker. Fiquei em segundo lugar.”

 

BRASÍLIA Pedro Paulo Saraiva (alto) e Rubens Paiva (abaixo) visitam em 1957 o local onde seria erguida a nova capital; eles fizeram um projeto de plano piloto que não foi aprovado. Foto: Walter Toscano
BRASÍLIA Pedro Paulo Saraiva (alto) e Rubens Paiva (abaixo) visitam em 1957 o local onde seria erguida a nova capital; eles fizeram um projeto de plano piloto que não foi aprovado. Foto: Walter Toscano

Para Saraiva, como a elite brasileira não tem uma sólida formação cultural, ela adere a todos os modismos. “A burguesia brasileira é muito nova, não tem história, tradição. Um empresário americano é rico há muitas gerações, tem uma estrutura de antepassados. E o europeu nem se fala. Você vai fazer um edifício pós-moderno em Roma? Não fica bem, eles zelam pelo passado. A Europa tem história. E os Estados Unidos têm presente. Mas possuem também mais de um século de boa arquitetura. Nós não. Nossa arquitetura de boa qualidade começou com o prédio do Ministério da Educação no Rio, há 70 anos (o projeto do Palácio Capanema foi feito por uma equipe que incluía Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Affonso Reidy, com consultoria de Le Corbusier). Os americanos têm 150 anos.”

 

Outra questão seria a legislação brasileira que, de acordo com Saraiva, não ajuda muito. “De uns tempos para cá, os arquitetos têm perdido prestígio e isso está ligado à forma de contratação. A Lei de Licitações prejudica porque é preciso levantar preços, fazer concursos e licitações. Só que a lei julga os projetos pelo preço. É um retrocesso.” Isso poderia ser evitado se os administradores públicos elaborassem bons cadernos técnicos para os projetos, com as especificações mínimas que teriam de respeitar.

 

Mas, a rigor, nem as especificações que constam dos projetos aprovados são respeitadas, afirma Saraiva. Quando projetou a requalificação do Mercado Municipal de São Paulo, a construtora não seguiu suas diretrizes. Saraiva pediu um piso de madeira de ipê, que não apodrece, mas fizeram um piso de granito com apenas dois centímetros de espessura, inadequado para áreas de tráfego intenso, que pedem no mínimo quatro centímetros. “Uma porcaria. Eu tinha feito quatro restaurantes, um em cada torre. Agora não dá para fazer mais porque lotearam o mercado. O prédio está em processo de decadência.”

 

A arquitetura custa dinheiro, o que pesa muito sobre o resultado final: “Há um problema de pobreza. Nossa arquitetura está defasada em relação ao que se faz na Europa. Em relação à americana, nós sempre estivemos defasados.” Isso não significa, é claro, que a Europa e os Estados Unidos sempre tiveram arquitetura de boa qualidade. Um exemplo é o pós-modernismo da década de 1970. “O pós-moderno foi um movimento que aconteceu no mundo inteiro. Mas aqui foi deletério, cortou um processo que estava em andamento, o que provocou um atraso. Mas o pós-moderno não durou muito, nem aqui nem em lugar nenhum do mundo, porque não trazia uma mensagem muito grande. É um ‘make-up’ no edifício, todo voltado para materiais brilhantes, granito, mármore, vidro. Uma arquitetura que não nos servia, tanto assim que foi descartada.”

 

Ao contrário do pessoal dos anos 1960, a maioria dos alunos de agora está interessada em estruturas metálicas: “Antes, o aço era importado. Houve muitos prédios feitos de aço, mas estão cobertos por alvenaria. Teve uma parada durante a Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos deixaram de mandar perfis para o Brasil, porque o aço ia para a indústria de guerra”. A solução foi usar o concreto, e o Brasil desenvolveu bem essa tecnologia. “O concreto é muito bom. Sempre mostro o projeto de um viaduto no lago Le Mans, entre Genebra e Lausanne. Ele é todo pré-moldado e protendido. Para fazer esse viaduto não foi preciso derrubar uma só árvore. Com o aço, isso seria impossível.”

 

Na prática, a escolha entre um e outro depende quase sempre do cliente, já que o aço é muito mais caro. “Fiz uma casa com uma estrutura mista de concreto e aço. Vinham duas equipes trabalhar no canteiro. Em uma, chegava um cara de carro, bem vestido, de bota, capacete, para fazer a estrutura metálica. Na outra, tinha um sujeito molambento, de sandália Havaiana, que chegava a pé. Esse era o do concreto. A diferença entre esses operários é brutal. Antes, o Brasil não tinha tecnologia para trabalhar em aço e nossa produção era mínima. Também não podíamos confiar nos preços. A gente fazia um projeto com um orçamento e, na hora da execução, o preço tinha dobrado. Isso quebrava as firmas.”

 

Saraiva teve muitos parceiros ao longo da vida além de Paulo Mendes da Rocha: Miguel Juliano, Mauricio Tuck Schneider, Francisco Petracco, Sérgio Fischer, Júlio Neves. “Minhas parcerias não foram de caso pensado. Luis Espallargas diz que talvez eu estivesse tirando o máximo dos meus colegas. Éramos todos conhecidos, dividíamos mesas. Minha turma no Mackenzie tinha 48 pessoas, a do Paulinho, apenas 35. A turma do Carlos Millan tinha 12 ou 14. No total, em São Paulo, havia somente cento e poucos alunos.”

 

Mas o arquiteto começou sua carreira na empresa do engenheiro Rubens Paiva, pai do escritor Marcelo Rubens Paiva. “Ele fez o projeto do Plano Piloto de Brasília comigo. Eu trabalhei para ele. Fiz, em Santos, o prédio Portofino e Portobelo, ambos de 1961. Dois anos depois, fizemos o Portovelho, o Portonovo e o Cidade de Santos. E a sede do Clube XV. O pai do Rubens, Jaime Paiva, tinha muito dinheiro e investia em imóveis. Comprava terrenos na praia, de frente para o mar. A gente propunha fazer prédios bonitos, e ele dizia: ‘De frente para o mar qualquer merda vende’. Mas Rubens sempre me apoiou. Projetei sete prédios para ele, além de um ginásio em Eldorado Paulista.”

 

Em meio ao trabalho de engenharia, Paiva se candidatou a deputado federal pelo PTB. “Foi eleito, virou vice-líder e se mudou para o Rio. Não fechou a firma, mas deu um break. Comprou, junto com Bocaiúva Cunha, uma empresa de estruturas metálicas no Rio, que fazia a manutenção de pontes da Rede Ferroviária Federal. Era muito atuante, ocupava uma posição importante no governo do Jango. Com o golpe, fugiu em um avião que tinha. Comandou algumas fugas com o piloto Mário Amaral. Levou Almino Affonso, Raul Ryff. Ele foi para o exílio. Mas acabou relaxando, voltou e foi morar no Rio novamente. Uma vez, visitou o pessoal que estava no Chile, no exílio, ainda no governo Allende. Quando voltou, foi preso e assassinado.”

 

A qualidade mais evidente da obra arquitetônica de Saraiva reside na maneira como expõe a estrutura de seus edifícios. “Boa parte dos meus projetos tem na estrutura a sua expressão mais abusiva, mais escancarada. Isso está nos prédios em concreto e mesmo nos de estrutura mista, como o do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), em Brasília. A maioria de minhas obras é de concreto, mas não tenho preconceito contra o aço. Desde o concurso da sede da Petrobras, em 1967, usamos estruturas mistas de concreto e aço. Revendo esse projeto, feito com Paulo Mendes da Rocha, João de Genaro, Miguel Juliano e Sami Bussab, vi como foi injusto o resultado. Você sabe quantos pilares tem o edifício vencedor? Trinta e dois. A estrutura é muito ruim, coisa de brasileiro. Você vai aos Estados Unidos, em Nova York, qualquer prédio daquele não tem pilar nenhum. Em dois capítulos da série de TV Mad Men, os homens da Madison, há uma discussão por causa de um pilar que existia numa sala. Ninguém quer saber de pilar. É uma porcaria. O nosso projeto para a Petrobras não tinha nenhum pilar: 27 metros de vão interno, 81 metros de comprimento, sem nenhum pilar. Aquele projeto tinha uma estrutura muito boa. É anterior ao projeto do Centro Georges Pompidou, do Renzo Piano, de 1971. O nosso era em concreto e aço; o do Piano, todo em aço.”

 

Esses espaços fluidos e essa preocupação em criar áreas de convivência não sinalizam uma arquitetura de esquerda? Como escreve Norberto Bobbio em Direita e Esquerda, a esquerda pressupõe que os homens são essencialmente iguais, e por isso promove políticas em prol da igualdade: “Nossa arquitetura pode ser considerada de esquerda porque ela se abre para a população. É inclusiva, generosa, com grandes vãos e abertura para a cidade. Sempre me considerei de esquerda”.

 

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FONTE: Revista Brasileiros

 

Publicado em 29/07/2016

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