EQUIDADE DE GÊNERO

Philomena Miller e Maribel Aliaga

Philomena em 1965. Fotos cedidas por Philomena Miller.

 

 

Philomena Chagas Ferreira Miller se formou pela Escola de Arquitetura de Minas Gerais em 1962. Logo após sua formatura, se mudou com a família para Brasília. Seu pai trabalhou com Israel Pinheiro na construção da nova capital.

 

Como mestranda da Universidade de Brasília (UnB), desenvolveu sua pesquisa com base nos dados sobre o clima enquanto parâmetros para a edificação em Brasília. Sua pesquisa teve orientação dupla: quanto às questões de clima, recebeu contribuições do professor Eustáquio de Toledo e como orientador geral de dissertação contou com o arquiteto João Filgueiras Lima, Lelé. Como membros de sua banca de mestrado, teve, além de Lelé, os arquitetos Edgar Albuquerque Graeff e Vilanova Artigas.

 

Philomena recebe o anel de formatura do paraninfo Vilanova Artigas em 1962. Fonte: Philomena Miller.

 

Além da pós-graduação, fez estágio em planejamento urbano com Oscar Niemeyer.  Mesmo com a sua família residindo na capital, ela morava e trabalhava na universidade como instrutora. Estudava o clima e a ventilação natural, em uma época em que o ar condicionado era sinônimo de tecnologia avançada, sendo pioneira na proposta de soluções ambientais sustentáveis.

 

Ao ingressar como estudante da UnB, esperava-se que a sua formação, assim como a de seus colegas, incluísse períodos de experiência no exterior, pois acreditava-se que a instrução nos países do norte global (em especial na Europa ou nos Estado Unidos) fosse sinônimo de qualidade.

 

Após ter o seu percurso formativo interrompido por conta do regime militar, Philomena perseguiu a sua carreira por meios próprios. Ela se inscreveu em um estágio na França, em 1966, e partiu para a experiência no exterior sozinha. Levou o que havia de melhor na Arquitetura mundial naquele momento: a experiência de Brasília.

 

Philomena e Gunter Weimer em Estrasburgo, 1967. Fonte: Philomena Miller.

 

Na França, foi trabalhar em um escritório de Arquitetura que fazia projetos para as colônias francesas na África, principalmente o Marrocos. Em seguida, foi convidada para um trabalho em Estrasburgo e lá fixou sua trajetória profissional como professora após passar em um concurso universitário na cidade.

 

Em razão da ditadura militar, Philomena demorou alguns anos para retornar ao Brasil. Voltou entre 1978 e 1979 como professora no curso de especialização em Conforto Ambiental na Universidade Federal da Paraíba.

 

Em 1990 Philomena foi anistiada e voltou para a Universidade de Brasília. Apesar de ser uma decisão institucional, não foi simples, pois já tinham se passado quase 30 anos. Como parte do processo, ela trouxe uma exposição com mais de 100 painéis de trabalhos estudantis que foi apresentada em Brasília no Centro de Planejamento Oscar Niemeyer (CEPLAN).  A exposição circulou o país e, ainda, passou pelo Uruguai e Argentina, contando com o apoio da Embaixada da França e da companhia aérea VARIG, que fez o transporte dos painéis.

 

Exposição que circulou pelo Brasil e Uruguai. Fonte: Philomena Miller.

 

Philomena se aposentou em 2005 e continua vivendo em Estrasburgo. Ao longo de sua carreira, procurou entender a relação entre a arquitetura e o seu entorno.

 

 

Maribel Aliaga 

 

Maribel Aliaga é doutora em Teoria e História da Arquitetura pela UnB e professora adjunta da mesma instituição

 

 

Arquiteta e urbanista pela Belas Artes de São Paulo, Maribel Aliaga é mestre em Teoria da Arquitetura e Urbanismo pelo Programa e Pós-Graduação em Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PROPAR – UFRGS), doutora em Teoria e História da Arquitetura pela Universidade de Brasília (UnB) e professora adjunta da mesma instituição desde 2008. Feminista e Pesquisadora do Observatório Amar.é.linha.

 

 

Entrevista com a pesquisadora

 

 

  1. Explique a sua pesquisa resumidamente (metodologia, variável e unidade de análise, recorte temporal).

Mayumi Watanabe e Philomena Chagas Ferreira, hoje Milles Chagas, apareceram na minha vida mais ou menos em 2012, em uma das últimas greves de docentes antes das viradas políticas do país. Não sei se fui eu que encontrei Mayumi ou se ela me escolheu. Passeando pelas prateleiras da Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE/UnB), sua dissertação de mestrado saltou aos meus olhos, abrindo um leque de possibilidades investigativas, o que viria a ser minha tese de doutorado. Partindo do trabalho da Mayumi, entendi que haviam outras dissertações e que alguns dos mestrandos dos anos 1960 ainda estavam por aí. Philomena era uma delas que apesar de morar na França há muitos anos, tem casa em Brasília e costumava vir aqui para passar o inverno europeu. Em uma dessas viagens, consegui um encontro com ela. Na conversa ela contou que partiu do Brasil em 1966, e talvez por isso mesmo preserva tão bem as memórias daquele tempo.

 

Meu contato inicial com as duas arquitetas tem a historiografia como base, e o esforço de recontar um tempo pouco lembrado até então. O período estudado é curto, vai de 1963 a 1965, aproximadamente, que é o tempo de permanência delas como mestrandas na UnB. Mas apesar do recorte, para entender a trajetória destas mulheres, é preciso entender o antes e o depois. Nelas há um emaranhado de fios e pontas que retratam tanto este período conturbado da história brasileira, como também a transformação das mulheres e o seu papel na sociedade.

 

 

  1. O que te motivou a pesquisar sobre o tema?

A pesquisa de doutorado é um dos requisitos da carreira acadêmica, escolher um tema pode ser uma tarefa complexa, pois a relação dura em torno de quatro anos. Ter com a pesquisa uma proximidade teórica e política foi uma das minhas premissas. Tal diálogo só foi possível graças aos documentos, mas sobretudo das entrevistas realizadas com algumas das personagens. Como em uma colcha de retalhos, a montagem do texto foi se construindo entre um e outro, e a partir desta trama foi possível recontar a história da criação da UnB pelo olhar das arquitetas e arquitetos que fizeram parte deste momento.

 

 

  1. Qual a relevância da(s) arquiteta(s) pesquisada(s) para a historiografia da Arquitetura e do Urbanismo? Comente as dificuldades e/ou especificidades enfrentadas pela(s) arquiteta(s) pesquisada(s) no exercício profissional relacionadas ao fato de ser(em) mulher(es)?

Tanto a Philomena como a Mayumi se formaram arquitetas e urbanistas no início dos anos 1960, a primeira na Escola de Minas e a segunda na FAUUSP. É preciso lembrar que na época havia apenas cinco escolas de arquitetura no país, e que a participação das mulheres no curso era em torno de 15 a 20%. Em um tempo em que as mulheres estavam ingressando no mercado de trabalho, elas foram muito à frente do seu tempo, e participaram da equipe de mestrandas que compôs o primeiro curso de pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo. Isso tudo em um país que buscava a modernidade, mas ainda era extremamente conservador. Elas eram estudantes e intelectuais do seu tempo, militantes e envolvidas com movimentos de esquerda, enfrentaram a repressão da ditadura militar.

 

Após o golpe, Philomena parte para o exílio e Mayumi é presa, apesar disso, ambas seguiram carreiras sólidas em ensino e pesquisa trilhando o caminho iniciado na UnB. Philomena é até os dias de hoje referência nos estudos bioclimáticos e de ambiência no Brasil. Em Estrasburgo, participou dos debates de 1968, que transformaram o ensino superior francês. Mayumi exerceu um importante papel técnico e político, no governo da prefeita Luiza Erundina, desenvolvendo projetos de peças moduladas em concreto para escolas primárias na cidade de São Paulo, criando um conceito embrionário de projeto e participação popular.

 

A recolocação de ambas e de tantas outras que ficaram invisibilizadas na historiografia da arquitetura moderna brasileira é um projeto de vida e de pesquisa que vem sendo desenvolvido pelas pesquisadoras do Observatório Amar.é.linha.

 

 

  1. Indique link(s) ou arquivo(s) para demais informações sobre a sua pesquisa, ou artigos publicados relacionados ao tema (podendo incluir referências bibliográficas de outras autorias).

ALIAGA FUENTES, Maribel; LATERZA, Ana; COELHO, Luíza Dias . Philomena Miller: Brasília-França, entre o exílio e o ensino. PERSPECTIVAS: Revista Científica de la Universidad de Belgrano., v. 4, p. 134-148, 2021. <https://revistas.ub.edu.ar/index.php/Perspectivas/article/view/187>

 

ALIAGA FUENTES, Maribel; COELHO, Luíza Dias ; TABOSA, Mayara . Mayumi Souza Lima e a Unidade São Miguel:  a herança feminina da Brasília dos anos 60. REVISTA ELETRÔNICA DE CIÊNCIAS HUMANAS, SAÚDE E TECNOLOGIA, v. 8, p. 109-124, 2020. <https://revista.fasem.edu.br/index.php/fasem/article/view/211>

 

ALIAGA FUENTES, Maribel. Três pioneiras no Cerrado. Monolito, v. 33, p. 80, 2017. <https://www.academia.edu/42652328/AS_ARQUITETAS_MULHERES_QUE_FIZERAM_A_CAPITAL_seus_projetos_suas_vidas_Hist%C3%B3ria_e_Historiografia_da_Arquitetura_e_do_Urbanismo_Modernos_no_Brasil>

 

ALIAGA FUENTES, Maribel. MAYUME E SÉRGIO SOUZA LIMA: OS BLOCOS RESIDÊNCIAS DA VILA SÃO MIGUEL. In: X SEMINÁRIO DOCOMOMO BRASIL ARQUITETURA MODERNA E INTERNACIONAL: conexões brutalistas 1955-75, 2013, Curitiba. Anais do X Seminário Docomomo Brasil, Arquitetura Moderna e Internacional: Conexões Brutalistas 1955-75.. Porto Alegre: PROPAR/UFRGS, 2013, 2013. <https://www.academia.edu/44150151/MAYUME_E_S%C3%89RGIO_SOUZA_LIMA_OS_BLOCOS_RESID%C3%8ANCIAS_DA_VILA_S%C3%83O_MIGUEL>

 

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