HOMENAGEM

Sede da Suframa, projeto de Severiano Porto, completa 50 anos nesta quarta-feira

Prédio da Suframa, projeto de Severiano Porto, inaugurado em 1974. (Fotos-montagem: Fábio Alencar/Suframa – Fotos: Divulgação/Suframa)

 

O histórico edifício da sede da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus) completa 50 anos nesta quarta-feira, dia 31 de janeiro. Projetado, em 1971, por Severiano Mário Porto, responsável por conceber um modelo único de Arquitetura Amazônica e sustentável e conhecido como o “arquiteto da Amazônia”, o prédio se destaca pelas cúpulas de concreto armado com ventilação por efeito chaminé e uma estrutura arquitetônica única na floresta amazônica.

 

Localizado no Distrito Industrial, na zona sul da capital amazonense, foi inaugurado em 1974 e atraiu a atenção de profissionais de Arquitetura e Urbanismo do mundo inteiro e é citado em várias obras sobre o tema. No mesmo ano em que o prédio foi inaugurado, o projeto foi premiado pelo IAB (Institutos dos Arquitetos do Brasil).

 

Foto: Núcleo de Pesquisa e Documentação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (NPD FAU – UFRJ) e Núcleo Arquitetura Moderna da Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (Nama Amazônia)

 

O edifício consolidou as bases do Polo Industrial de Manaus (PIM), mas teve sua história marcada por incêndio, reformas e tombamento. O destaque são as cúpulas de concreto armado com ventilação por efeito chaminé, rompendo com as soluções regionais em madeira usualmente empregadas pelo arquiteto. Segundo relatos de pesquisadores, Porto afirmou que o projeto teve a preocupação de apresentar uma solução que levasse o mundo a acreditar que o Distrito Industrial “ia ser para valer, não era uma coisa temporária”. Dessa forma, o concreto visava transmitir uma imagem de solidez e permanência à estrutura.

 

 

Foto: NPD FAU – UFRJ e Nama Amazônia

 

O superintendente da Suframa, Bosco Saraiva, contextualiza o momento de construção do edifício com a ocupação do Polo Industrial de Manaus. “Estamos no momento de construção do Distrito Industrial, com a instalação das primeiras indústrias na área destinada do PIM e é necessária uma sede para a Superintendência desse novo polo que promete revolucionar as bases desenvolvimentistas da região. Severiano Porto entende a dimensão do que deve significar a sede da Suframa e desenvolve essa estrutura arquitetônica única que criou um entrelaçamento entre o concreto armado e a floresta amazônica, que marca sua obra”, explicou.

 

 

Fotos: Suframa

 

A área construída totaliza 7.500 metros quadrados, composta por blocos distribuídos em módulos de 15m x 15m, permitindo expansão com a construção de novos módulos, se necessário. O edifício é constituído por dois blocos interligados por uma passarela coberta, abriga administração, biblioteca, auditório, castelo d’água e área de estacionamento, com um anexo contendo restaurante e escritórios. Os espaços internos e externos são conectados por pátios e corredores cobertos, sob uma cobertura única em concreto, oferecendo suporte estrutural ao conjunto. Dentro do prédio principal há ainda um jardim interno, que ocupa o espaço de dois módulos. Atualmente, cerca de 400 servidores e colaboradores atuam na sede da Suframa.

 

Foto: NPD FAU – UFRJ e Nama Amazônia

 

Para os servidores da Suframa, especialmente os mais antigos na Casa, várias são as memórias e os relatos de vivência na sede da Suframa. “A Suframa é uma parte da minha vida e muitos capítulos da minha história pessoal. É a continuação da minha casa e, como costumo dizer aos antigos e novos colegas de trabalho, é a nossa eterna escola, pois aqui aprendemos alguma coisa todos os dias’, afirma o servidor Emmanuel de Aguiar, servidor de carreira há quase 40 anos.

 

Emmanuel recorda, inclusive, do incêndio que destruiu grande parte da área interna do prédio, em maio de 1994. “Esse episódio marcou muito a todos aqueles que se dedicam com afinco a essa Instituição. Nessa ocasião eu estava residindo em Rio Branco, no Acre. Ao ver na TV as imagens da destruição da sede e alguns colegas desolados, inertes diante daquela cena terrível, confesso que não deu para conter o choro e a imensa tristeza. Era como se eu tivesse perdido para o fogo a minha própria casa e esse certamente foi o sentimento de todos os outros colegas naquele momento”, disse.

 

Segundo ele, o incêndio suscitou argumentos para um tema recorrente em toda a trajetória do projeto Zona Franca de Manaus e sua política de incentivos fiscais: de que a Zona Franca de Manaus deveria acabar. “Ouvi um comentário de que se ainda faltava alguma coisa para o fim da ZFM, esse incêndio veio para transformar tudo em cinzas”, relatou.

 

Mas assim como na Zona Franca de Manaus, a resiliência também está no DNA dos servidores e colaboradores da Casa. “A resposta veio rápida, numa demonstração de amor, de garra, determinação e espírito público dos seus dirigentes, servidores e colaboradores. Internamente, vivenciou-se uma mobilização de guerra para que os serviços de atendimento ao comércio e à indústria do polo industrial não fossem totalmente prejudicados. Depósitos, corredores e até banheiros do prédio anexo da Suframa foram transformados em gabinetes e salas de trabalho até a reinauguração da sede, em 1998”, destacou Emmanuel.

 

Reformas e tombamento

 

Foto: Leonardo Finotti

 

Com o incêndio em 1994, o edifício passou por reformas, com um novo projeto realizado por Severiano Porto, que trouxe modificações nos ambientes fechados e áreas de circulação. O sistema construtivo modular permitiu a adaptação da área construída às necessidades, com a cobertura sendo reaproveitada após o incêndio. O novo projeto priorizou aspectos bioclimáticos, com ventilação natural e iluminação moderada, utilizando elementos arquitetônicos para melhorar o conforto ambiental e garantir flexibilidade no uso dos espaços.

 

A trajetória da sede da Suframa em Manaus exemplifica não apenas a resiliência dos servidores, mas também a importância histórica e cultural do edifício. Em 2016, de autoria de Bosco Saraiva enquanto deputado estadual, foi realizado o tombamento da sede da Suframa, bem como outras obras de Severiano Porto no Amazonas, por meio da Lei nº 312, em razão do valor arquitetônico e a relevância para a região.

 

Severiano Mário Porto

 

Severiano Mário Porto (Divulgação CAU/AM)

 

Nascido em Uberlândia (MG), em 1930, aos cinco anos de idade mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Em 1954, formou-se pela Faculdade Nacional de Arquitetura (FNA), da Universidade do Brasil.

 

O conjunto de sua obra une técnicas desenvolvidas por ribeirinhos e caboclos, marcada pela presença de regionalismo, com as mais modernas e inovadoras criações da Arquitetura. Foi premiado em 1985 pela Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires e reconhecido internacionalmente, em 1987, sendo eleito o homem do ano pela revista francesa L’Architecture d’Aujourd’hui.

 

Uma anedota que mostra um pouco do espírito de Severiano é a história de seu carro que trazia em destaque um adesivo do IAB com a frase “a natureza cria, o arquiteto transforma”. Contestando a afirmação, o arquiteto rasurou severamente a palavra “transforma”, sobrepondo a ela o termo “INTEGRA”.

 

Faleceu, aos 90 anos de idade, no dia 10 de dezembro de 2020, em Niterói (RJ), vítima do coronavírus.

 

(Com informações do Núcleo Arquitetura Moderna na Amazônia e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC)

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Uma resposta

  1. Bom dia,
    Acho excelente a postura do CAU em divulgar os projetos dos Arquitetos brasileiros de renome, mas, e quanto a nossa arquitetura neoclássica, republicana (eclética), art nouveau, art-deco, onde muitas vezes, são desconhecidos (as) seus autores? Deveriam, também, serem preservadas e restauradas pelo IPHAN!
    O turista brasileiro adora Paris, Londres, Lisboa, retorna admirado com a arquitetura, que promovem esses países, no entanto aqui, são barbaramente desprezadas e demolidas.
    Cabe ao CAU/BR focar na luta pela preservação do patrimônio edificado em todo do Brasil, e exigir, que o IPHAN, não fique apenas preocupado com a arquitetura colonial!

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