EVENTOS

Sobre o artigo “Bienal em Veneza 2016: Juntos ou divididos ?” (por Bete França)

Para Washington Fajardo!

 

Sobre o artigo Brasil em Veneza 2016: Juntos ou divididos?, permito-me concordar com alguns pontos e discordar de outros.

 

O tema da 15. Mostra, com a curadoria do arquiteto Alejandro Aravena, “Reporting from the front”, se propõe mostrar ‘novos campos de ação da arquitetura, através de exemplos de intervenções práticas que revelem ousadia, e criatividade, além do senso comum da arquitetura’.

 

O primeiro ponto, de concordância, e tenho me reportado há anos às nossas entidades para que busquem mudar essa forma de representação, é que a escolha do curador do Pavilhão Brasileiro está a cargo da Fundação Bienal, por designação do Itamaraty. Ora, a Fundação a cada dois anos tem a tarefa hercúlea de organizar a Bienal de Artes e, portanto, seu foco jamais será a arquitetura. Assim, o curador é sempre escolhido de última hora, os recursos disponíveis para a organização da exposição são próximos ao zero e por aí vai.

 

Porém, nesse ano, a Fundação Bienal acertou na escolha da curadoria. Washington Fajardo é um daqueles arquitetos que amam a profissão, a cidade e a atividade pública. Quem já andou com ele pelo centro do Rio de Janeiro, explicando o que tem feito como presidente do Rio Patrimônio da Humanidade, vai entender o que eu estou falando. Integra o grupo dos grandes nomes da arquitetura carioca que se destacam à frente de programas e projetos públicos que buscam transformar a cidade do Rio de Janeiro recuperando os espaços públicos, o patrimônio histórico e a memória e urbanizando favelas; um grupo seleto formado por Luiz Paulo Conde, Sérgio Magalhães, Carlos Nelson, Affonso Reidy e Lucio Costa, só para lembrar alguns nomes.

 

E, aí, vem o meu ponto de discordância veemente com o artigo. Relacionar o Washington e a curadoria ao partido do prefeito do Rio de Janeiro, que é o mesmo do presidente interino é uma afirmação maldosa e fruto de um pensamento moldado no pior viés ideológico da nossa assim chamada esquerda. Apenas para temporalizar a afirmação, se o artigo fosse escrito há um mês atrás, o autor teria que informar que o curador era ligado ao partido que apoiava a então presidente, ora afastada.

 

Ou seja, uma informação irrelevante e desnecessária, à moda do que o velho companheiro Lênin tratou na Doença Infantil do Comunismo, em 1920.

 

Sobre a ‘visão positivista’ também tenho discordância. O ‘Juntos’ que dá nome à exposição no Pavilhão Brasileiro sintetiza o que os 15 projetos apresentados têm em comum: a proximidade entre as construções coletivas do imaginário popular e a arquitetura. Não pretende sustentar ‘olhares sociológicos sobre um projeto de país e etc’.

 

Vou além, entendo que o conjunto de trabalhos escolhidos pela curadoria buscam mostrar que existe uma produção de arquitetura no país que vai além daquela que é um lugar comum, produzida apenas para as camadas mais ricas da sociedade, que é o que tem caracterizado nossa produção desde sempre.

 

E porque a escolha é importante? Examinando os 100 Top Projects, publicados nesse mesmo site (ArchDaily), pasmem… entre os 100 melhores trabalhos da década, escolhidos pelo número de acessos, apenas um deles trata da habitação social no Brasil. A maior parte são casas particulares produzidas para as classes AAA (não vai nenhuma crítica aqui à boa arquitetura dos projetos escolhidos, mas sim, trata-se de um chamado à reflexão sobre o nicho da população que atendemos).

 

Outra discordância de fundo com o artigo diz respeito às considerações sobre o Parque Madureira parecer uma ‘verdadeira propaganda política da prefeitura carioca’. Estimulada pelos elogios à obra, que Jeff Anderson fez, fui conhecer o parque, que transformou uma área abandonada do bairro. Só mesmo para quem conheceu o antes e o depois pode entender a dimensão da intervenção, pois fica difícil explicar a mudança que a área de lazer representou para a população local.

 

Aqui em São Paulo podemos comparar com projetos como o Centro Cultural, o Sesc Pompéia ou o Cantinho do Céu: áreas antes deterioradas ou não utilizadas, após intervenções arquitetónicas e urbanas, se transformam em espaços democrático de lazer, de encontro dos diferentes, do sentido de pertencimento à cidade.

 

Deve ser difícil para os que tem fácil acesso ao lazer, aos parques e clubes, entender o que representa para a população de baixa renda que vive nos bairros carentes de infraestrutura e equipamentos públicos, o que significa a implantação de um parque como o de Madureira. Para os moradores do local agora não é mais necessário enfrentar horas de ônibus para chegar na zona sul do Rio para aproveitar a praia, no novo parque, que podem acessar caminhando, podem estender sua toalha, tomar sol, aproveitar as chuveiradas, jogar futebol e até um churrasquinho. Tudo isso em um espaço projetado com boa arquitetura e urbanismo.

 

E aí, creio que temos uma indicação das origens do país segregado, que o artigo menciona, pelo menos no que diz respeito à arquitetura e à profissão. Na realidade a segregação nas nossas cidades não está ‘em um muro na Esplanada dos Ministérios’. Está sim, na nossa atuação profissional: somos muito competentes para desenvolver discursos à esquerda (relembrando Lênin) sobre as mazelas das cidades, mas continuamos produzindo para o 1% da população que concentra a renda do país. Desprezamos quando alguns colegas optam por se aproximar de uma clientela anônima, consideramos positivista essa atuação profissional. Consideramos de menor relevância projetar espaços públicos nas favelas, fazemos críticas aos bons projetos de habitação para os de baixa renda, enfim para nós a pobreza é útil como discurso, jamais como objeto de intervenção.

 

E, aí entende-se a crítica do artigo à curadoria da exposição, porque o Washington e sua equipe buscaram, a partir de uma pesquisa cuidadosa, apresentar o que vai além da produção tradicional da arquitetura, a conhecida e exaltada por todos. Nessa busca e seleção dos 15 projetos, a curadoria mostrou que estamos muito longe de atender à sociedade, em especial os que mais demandam projetos públicos de boa qualidade. E, quando nos defrontamos com o retrato que a exposição nos proporciona, ficamos envergonhados ao constatar que ao contrário do discurso que praticamos – da sociedade justa e igualitária – atuamos para apenas 1% da população.

 

Finalmente, sobre a crítica que o artigo faz ao Jardim Edite, projeto desenvolvido sobre minha coordenação, afirmar que não houve discussão sobre propriedade privada ou aluguel social, reduz por demais os resultados dessa experiência, quando tivemos a ousadia de utilizar recursos da operação urbana, antes dedicados a projetos de avenidas e pontes, para fins sociais. O conjunto habitacional rompeu o paradigma da moradia isolada quando, indo contra a legislação burocrática que regulamenta a produção de HIS, incorporou equipamentos públicos abertos a todos. A escola de gastronomia, ainda não implantada, atendeu à demanda dos moradores, que consideravam importante o espaço para a capacitação dos jovens, na busca de novas opções de trabalho.

 

Depois de muito refletir, concluo que entendo a crítica à exposição. Ela tem como ponto de partida, não a arquitetura, não a reflexão atual sobre as cidades e as formas de produzi-la, não a preocupação com as demandas contemporâneas dos seus moradores. Sua base conceitual é ideológica, seu ponto de partida é o da afirmação do pensamento único, das verdades absolutas. Se acreditamos que estamos segregados pelo muro de Brasília e que o ‘juntos’ é um viés positivista, como podemos nos interessar pelas opiniões e desejos daqueles que fruem os resultados dos 15 projetos apresentados no Pavilhão Brasileiro? Afinal, é mais fácil a indignação contra a cultura da violência do que a reflexão sobre em que ambiente ela floresce.

Grande abraço para Washington Fajardo e toda sua equipe da curadoria.

 

Elisabete França é arquiteta e urbanista, relatora do 27º Congresso Mundial de Arquitetura – UIA 2020 RIO e professora em cursos de graduação e especialização em instituições como a Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e o núcleo de estudos USPCidades. Foi superintendente da Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo (2005-2012) e coordenou, entre 1993 e 2000, o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga, respondendo pela urbanização de mais de 100 favelas.

 

Artigo publicado originalmente na página do Facebook da arquiteta e reproduzido pelo site do IAB. 

 

Link relacionado:

 

Pavilhão brasileiro na Bienal de Veneza em meio a críticas e elogios

 

Publicado em 17/06/2016

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