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“Transporte público é solução”, diz Haroldo Pinheiro

Transporte público de Curitiba (PR), considerado exemplo para o país

 

O desenvolvimento das cidades brasileiras sem planejamento levou a uma situação em que os problemas se acumularam e hoje precisam de intervenções inteligentes para tentar devolver uma vida com qualidade para os cidadãos. O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, Haroldo Pinheiro, acredita que a solução virá articulada, porque os problemas não se restringem apenas a idas e vindas de automóveis pelas ruas. Em João Pessoa, ele recebeu o Correio e disse que não se pode mais perder tempo discutindo questões que estão postas e que já foram debatidas no passado. “O que precisamos é discutir o futuro”. A solução para evitar o caos depende de três pilares: “Inteligência, recursos e vontade fazer”, que ele resume em uma iniciativa: planejamento.

 

– Como as cidades vão resistir ao crescimento desordenado hoje tão comum?

Só com planejamento. Sem planejamento, o problema só vai se agravar. Se fizermos um breve histórico do século XX, nós saímos de uma situação no início do século, onde tínhamos cerca de 18% da população brasileira vivendo em cidades e 82% no campo, em vilas e povoados. No início dos anos 90% chegamos a 85% da população residindo em áreas urbanas e apenas 15% em área rural.

 

– Foi quase um fenômeno…

 O Brasil passou por um processo de urbanização vertiginoso e descuidado, sem planejamento. Nunca houve essa preocupação, talvez por ser um País muito grande, e com muitas terras boas e paisagens deslumbrantes, foi sendo feito e chegamos onde estamos.

 

– Dá para consertar?

Dá sim. Qualquer problema tem solução. Depende de inteligência, recursos e vontade de fazer da administração pública. De administradores que compreendam essa necessidade. De evitar-se o agravamento da questão urbana. De todas as constituições que tivemos – e não foram poucas – apenas na de 1988 a expressão urbano compareceu no texto legal sem ser para se referir ao Imposto Predial e territorial Urbano – IPTU.

 

– Mesmo assim o capítulo levou anos para ser regulamentado?

Muitos anos. Só tivemos o Estatuto das Cidades em 2001 por uma pressão muito grande das organizações de arquitetos e movimentos sociais, porque encalhou. A tramitação do projeto de lei começou em 1989, só foi aprovado em 2001 e com muitos cortes. E no texto original já abordava a questão metropolitana.

 

– Dos problemas que hoje afligem as cidades, qual o senhor considera mais grave? O trânsito? Falta de saneamento?

São entrelaçados. É até a crítica que fazemos ao Ministério das Cidades, que criou quatro seções para tratar as cidades: mobilidade, sanitaríssimo, habitações e planos urbanos. Agora, não há uma costura disso. Desde a criação do Ministério das Cidades nunca tivemos um urbanista, uma pessoa efetivamente vinculada à questão urbana, conhecedora.

 

– Que profissional o senhor citaria com esse perfil?

O Jaime Lerner, em Curitiba. Até hoje é um exemplo na articulação da paisagem com a mobilidade, com a habitabilidade. A grande virtude dele foi executar o pensamento de um grupo de urbanistas que já tinha solução para a cidade de Curitiba.

 

– Que grupo era esse?

Havia Universidade, O Instituto de Arquitetos do Brasil, do qual ele tinha sido presidente e urbanistas que já tinham feito estudos, como o Jorge Wilheim, Luís Forte Neto. Quando assumiu a prefeitura pegou aquilo tudo e disse: vamos realizar. Houve os que quiseram discutir mais, fazer assembleia e ele não deixou. Isso aqui já discutimos, vamos realizar. Vamos discutir o futuro. O presente já discutimos no passado.

 

– Mas como os arquitetos estão pensando a questão do trânsito?

Cada cidade tem seu problema e sua solução particular. Não estou fugindo da questão, apenas dizendo que não já uma solução padrão para se usar, simultaneamente em João Pessoa e Recife. Ou João Pessoa e São Paulo.

 

– Mas, digamos assim, a solução não virá com o alargamento de avenidas?

Não. Óbvio que não. Pelo contrário, isso desumaniza a cidade. O Brasil fez opção pelo “rodoviaríssimo” na década de 1950 e isso é o que temos. O que temos que fazer? Não há uma solução padrão, isso não é má receita, mas tem que se investir na qualidade do transporte público.

 

– A exemplo de?

Voltamos a Curitiba. Essa solução foi dada lá na década de 1970. O que o Jaime Lerner fez? Criou estações de interligação inteligentes, no nível de acesso. Usou soluções utilizadas em metrô na superfície.

 

– O metrô ainda é uma solução?

Não é mais para as grandes cidades. É caro demais. Quem fez, no Inal do século XIX, começo do século XX, fez. Época de mão de obra barata, de direitos trabalhistas menores, sem exigências sindicais, então Tóquio, Paris, Moscou todos têm redes de metrô eficazes, mas hoje é impossível. Veja São Paulo, a cidade mais rica do País, as dificuldades que enfrenta para fazer um ramal amais.

 

– Quais são soluções então?

Há soluções antigas razoáveis, como caneletas individuais para ônibus, ônibus melhores – hoje a maior parte dos ônibus usados nas cidades brasileiras são “caminhões carroçados”- plataformas de acessos elevadas para dar rapidez no embarque e no desembarque, disciplina nos horários de passagem dos ônibus. Conheço pessoas em Curitiba, mais velhos do que têm orgulho de usar o transporte público.

 

– Então, temos que tirar os carros de circulação?

Sim. Mas há um paradoxo aí: o governo investe pesadamente na tentativa de resolver o problema da mobilidade, mas por outro lado facilita financiamento de automóveis, segura preços de combustíveis, o que é contraditório. Veja a facilidade que se tem para comprar um automóvel e a dificuldade para se financiar uma casa.

 

– Como conciliar o sonho de consumo do automóvel, a sensação de liberdade, de ser dono do tempo com essa necessidade de construção de espaços melhor para todos?

Se for oferecido isso em um transporte coletivo – segurança de tempo, conforto no ambiente, higiene, qualidade arquitetônica. Nos locais de espera, espaços públicos mais agradáveis ao invés de aumentar a impermeabilização do solo com mais asfalto.

 

– Restringir acessos cobrando pelo uso ou punindo que tentar usar alguns espaços seria a solução?

É um instrumento a mais que deve ser utilizado e deve. Não como uma punição, mas como um benefício para a sociedade, de produzir espaços públicos mais agradáveis para o cidadão, locais para circular com crianças, com idosos, praticar esportes com arborização e calçamento decente, seja o que for. O uso da cidade, o bom uso. Não pode ser só a punição e nem só o benefício. Deve haver articulação com bom senso.

 

– Se funciona em conjunto a solução deve ser comum?

Para isso as pessoas estudam. Alguém já disse: não tem solução simples para problemas complexos. Na medida em que se tem o conhecimento técnico e tecnológico se consegue sintetizar, simplificar.

 

– Mas se há o conhecimento, por que estamos longe das soluções?

Veja bem: quem tem mandado nas cidades brasileiras são os empreiteiros. São eles que decidem como as cidades vão se expandir. Eles adquirem os terrenos e não tem nem a reflexão articulada da habitação com as questões urbanas e deixando para nós, que pagamos a conta, um problema a mais.

 

– Que problema é esse?

Constroem ali um número – os números interessam, fizemos cinco mil habitações. Criam uma pequena cidade, só de casas, num determinado ponto para onde não há transportes, coleta de resíduos, água e eletricidade. Depois nós temos que gastar com isso tudo para levar para lá, quando nós temos já urbanizada, que nós já pagamos todos esses investimentos públicos, mas vão fazer lá fora e tem que criar tudo pra lá. É um erro triplo.

 

– Como a arquitetura pensa a questão da sustentabilidade?

Também de forma articulada. Tanto que se coloca na mesma discussão a urbanização e a preservação dos recursos. E s t a m o s vendo agora a gravidade dos problemas de abastecimento d’água, de fornecimento de energia que não são só dos locais que estão enfrentando da crise, mas, às vezes, estão ocorrendo a quilômetros de distância, como o desmatamento na Amazônia. É um sistema.

 

– Voltamos ao que fazer?

 São problemas complexos, mas há propostas que devem ser consideradas. Há poucos meses, tivemos uma reunião da União Internacional dos Arquitetos e lá foi colocada uma proposta que chamamos “desafios de 2050”, que é trabalharmos até 2050 para reduzir a zero as emissões de carbono na construção dos edifícios nas cidades e trabalhar pela autossuficiência com relação à energia – reduzindo desperdícios e produzindo – e redução dos locais de tratamento de esgotos, com reaproveitamento de água.

 

– O senhor tem esperança?

Sou otimista. As soluções estão aí. Os estudiosos, os cientistas, os arquitetos que trabalham no cotidiano vão se destacando, a sociedade está consciente que precisa discutir o que está sendo realizado, porque afinal é ela que paga e vai viver depois ali. Não é para um empreiteiro lucrar e depois ir morar em Miami. Estragam nossas cidades e depois vão pra lá.

 

– Como o senhor vê os mega-eventos que careiam investimentos para algumas cidades, como, por exemplo, Copa do Mundo e Olimpíadas?

O mega evento utiliza uma oportunidade para concentrar esforços na atualização das cidades, na solução de problemas de transportes, faz um investimento forte contando com o retorno na visibilidade diante do mundo, no bônus do turismo. Veja a quantidade de dinheiro que uma Copa do Mundo, agora a Olimpíada, há algum tempo o Pan Americano. Mas as cidades estão ganhando os eventos e não estão proporcionando o que se espera.

 

– Os arquitetos agora têm um Conselho próprio, após desligarem-se do Crea. Como está o processo de consolidação da entidade?

Justamente utilizando a tecnologia mais contemporânea, o conhecimento científico mais atual, nós conseguimos construir um conselho em três anos em todas as unidades da Federação. Fizemos isso com dinamismo, baixo custo e com equilíbrio social. Hoje nosso arquiteto esteja no Estado que estiver ele trabalha para qualquer lugar do Brasil. Não é necessário visto ou qualquer inscrição.

 

– Qual foi o investimento em tecnologia?

Investimos pesadamente nas tecnologias de informação, comunicação, georreferenciamento e inteligência geográfica para todos. O que há de melhor à disposição de todos. Fizemos as licitações todas, montamos um sistema todo articulado que vai desde soluções para fiscalização no século XXI – não adianta você por um carro na rua procurando um monte de brita para saber que ali tem uma obra, Tem que ser em outros padrões. Todos os softwares são de primeira linha. Quando precisamos de fazer upgrade fazemos para o País inteiro.

 

– Socializaram os meios?

Exatamente, e sem ideologia. Buscamos a eficiência, Nossos recursos são parcos, mas conseguimos em três anos montar no País inteiro. Agora botar a máquina para funcionar. Fizemos um censo, sabemos onde está cada arquiteto do que ele precisa e do que ele reclama.

 

– Qual o próximo passo?

Vamos fazer uma pesquisa para saber como a sociedade enxerga a arquitetura, porque nós não temos cultura arquitetônica e urbanística no País. Basta ver isso para ver o nível de exigência que nós cidadãos temos com nossas cidades. Se vai aqui ao lado, no Uruguai ou na Argentina, os jornais Têm Cadernos de arquitetura – não é de decoração. Se discute os problemas da cidade, o espaço público, a qualidade do meio fio, das calçadas para as pessoas se deslocarem. E aqui aceitamos e engolimos o que vem, não há a cultura.

 

– Se tem arte, mas parece que a arquitetura está fora dela…

As pessoas leem sobre teatro, cinema, mas arquitetura, que é um bem cultural de consumo compulsório você se desloca daqui para seu escritório, você tem que viver a cidade e nós não exigimos que isso tenha um pouco de qualidade. Então vamos tentar compreender melhor como a sociedade vê a arquitetura e o urbanismo para que possamos desenvolver política profissionais adequadas.

 

– Algum trabalho junto aos gestores?

Estamos conversando com uma Frente de Prefeitos. Tenho comentado com eles que a Caixa Econômica e Ministério das Cidades têm recursos, que não conseguem repassar para os municípios porque não há projetos. Levam projetos políticos, econômicos, mas não levam os projetos do que vão fazer com o dinheiro.

 

– O que o senhor tem recomendado a eles?

Explico que se colocarem um arquiteto na prefeitura pagando o salário mínimo profissional vai gastar R$ 120 mil por ano e com esse arquiteto terá acesso a milhões de reais e melhor vai, pelo menos em tese, aplicar melhor esses recursos porque terá uma pessoa que estuda para melhoraras cidades para dar articulação entre as diversas as ações. Então, uma prefeitura deve ter pelo menos um arquiteto.

 

 

Publicado em 02/02/2015. Fonte: Luiz Carlos Sousa/Correio da Paraíba.

 

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