
O aumento das ondas de calor impõe novos desafios às cidades brasileiras e exige atenção a aspectos da arquitetura e do planejamento urbano que podem contribuir para reduzir a exposição da população às altas temperaturas. Arborização urbana, áreas com água, orientação solar, materiais com maior inércia térmica, revestimentos e pavimentos estão entre os elementos que podem fazer diferença nesse cenário.
Em entrevista exclusiva ao Perspectiva CAU, o conselheiro federal Carlos Eduardo Pedone (RS) explica como essas estratégias podem ser incorporadas ao desenho das cidades e aos edifícios, inclusive em construções já existentes. O arquiteto e urbanista também destaca soluções de baixo custo e o que profissionais da arquitetura e urbanismo precisam considerar diante das mudanças no padrão climático.
Confira, a seguir, trechos da entrevista.
Perspectiva CAU: Por que as cidades brasileiras são tão vulneráveis às ondas de calor e qual é o papel da arquitetura nesse cenário?
Carlos Eduardo Pedone: As cidades brasileiras têm um enorme grau de edificação e afastam a natureza do ambiente urbano. Essa é uma tendência. A questão da arborização urbana também tem sido relegada a um segundo plano.
A arquitetura tem um papel importante nesse cenário, uma vez que podemos recuperar a ideia de aproximar a natureza do ambiente urbano, não deixando esse papel apenas para as áreas rurais ou de preservação, mas incorporando a natureza à construção das cidades brasileiras. Esse é o papel da arquitetura nesse cenário. Desse modo, conseguimos reduzir imensamente as ondas de calor e as ilhas de calor, como chamamos.
Perspectiva CAU: Quais características de um edifício podem fazer diferença para reduzir o calor dentro dos ambientes sem depender exclusivamente do ar-condicionado?
Carlos Eduardo Pedone: A primeira característica dos edifícios que pode contribuir para reduzir o calor dentro dos ambientes é a forma como o edifício é implantado no terreno, buscando orientações solares mais favoráveis nas situações em que, determinadas épocas do ano, o sol possa incidir menos sobre as áreas envidraçadas.
Outra questão é a envoltória dos edifícios, que deve ter maior capacidade de impedir que o calor entre nos ambientes. Isso significa evitar superfícies envidraçadas em orientações solares desfavoráveis, como Oeste e Leste puro, a depender das regiões onde os edifícios serão construídos.
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Perspectiva CAU: Que soluções de baixo custo podem ser adotadas em casas e edifícios já existentes para melhorar o conforto térmico?
O projeto arquitetônico tem uma importância enorme nessa questão das soluções de baixo custo que podem ser adotadas em casas e edifícios já existentes para melhorar o conforto térmico. Precisaríamos promover algumas reformas. Mudarmos o padrão de aquecimento nas nossas cidades, talvez até com vegetação, permitindo que possamos encobrir algumas fachadas em situações mais desfavoráveis do ponto de vista da orientação solar.
Também podemos utilizar revestimentos de fachada que possam melhorar o que chamamos de envoltória, que vai ter uma inércia térmica maior. Vamos ter que, de certa forma, utilizar envoltórias que compreendam essas novas características do padrão de temperatura que temos nas nossas cidades.
Perspectiva CAU: O que precisa mudar no desenho das cidades para reduzir a exposição da população ao calor, especialmente em áreas mais vulneráveis?
Carlos Eduardo Pedone: O que precisa mudar no desenho das cidades para reduzir a exposição da população ao calor, especialmente em áreas vulneráveis, tem muito a ver com a arborização urbana e com a ideia de utilizar expedientes da natureza, como também áreas com água que possam refrescar esses locais, principalmente nas situações em que temos maior impermeabilização do solo.
Os pavimentos também podem mudar. Hoje se utiliza muito pavimento de asfalto e de concreto, que geram muita radiação e exacerbam essa questão nesses locais. É preciso trabalhar com pavimentos que possam ser mais absorventes do ponto de vista do calor. Temos, portanto, tanto a natureza quanto a questão dos revestimentos, que também precisam ser repensados nesse novo padrão climático. Obviamente, nas áreas vulneráveis, temos um pouco mais de dificuldade para isso, mas precisamos pensar em soluções baratas. E, nesse sentido, a natureza nos ajuda muito a poder encontrar soluções para essa redução da exposição da população ao calor.
Perspectiva CAU: Com o aumento dos eventos extremos de calor, o que arquitetos e urbanistas precisam considerar hoje que não era tão importante no passado?
Carlos Eduardo Pedone: Com o aumento dos eventos extremos de calor, para além daquilo que já se falou em termos de natureza, é preciso considerar a pesquisa de materiais com maior inércia térmica. Isso não era tão importante no passado, uma vez que tínhamos uma característica e um padrão climático mais ameno na maioria das cidades brasileiras, com exceção do Nordeste.
Mesmo nessas localidades, que tinham um padrão mais definido em termos de inverno, verão, primavera e outono, hoje há um aumento maior das temperaturas. Precisamos entender que o padrão mudou. A arquitetura tem a possibilidade de trabalhar a orientação solar dos compartimentos e também a questão dos materiais, para além daquilo que já se falou em termos de natureza.